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A primeira em 518 anos: conheça Sônia Guajajara, indígena e presidenciável em 2018

31.7.2018

Movimento RUA: É a primeira vez na história do Brasil que uma indígena irá concorrer à presidência da República no Brasil. Por que isso levou tanto tempo para acontecer?

 

Sônia Guajajara: Os povos indígenas não tinham a visão de ficar na linha de frente de processos institucionais, esse lugar sempre pareceu distante de nós. Quando decidimos indicar o meu nome na chapa presidenciável pelo PSOL, fizemos uma avaliação de que o momento é muito hostil e que precisávamos ocupar todos os espaços para ampliar nossa voz e nossa representação. Em 2018, estamos com forte representação indígena para as eleições em todos os estados, queremos entrar nessa disputa para ocupar espaços no parlamento e no Executivo para fortalecer nossos direitos.

 

 

 

RUA: Você se organizou no PSOL em 2011. Como que foi a caminhada de uma militante indígena, mulher e nordestina para chegar a uma candidatura a co-presidência da república?

 

SG: Sempre estive na construção do movimento indígena a partir da organização de nossas bases e povos. No âmbito partidário, por muito tempo fui filiada ao PT, lugar onde eu fiz muita formação política e construção junto aos movimentos sociais. Em 2011, saí do PT junto com várias pessoas do Maranhão para me filiar ao PSOL. Naquele momento, não tinha nenhuma pretensão de candidatura, mas eu queria estar ligada a um partido que pudesse entrar com a gente e abraçar nossas pautas, e o PSOL era o partido que congregava todas essas bandeiras, como é até agora. Por algum tempo também não consegui militar muito dentro do partido em si porque a gente sabe que o PSOL tem muitos blocos que não conseguem se juntar. Eu fui me aproximar mesmo através da bancada parlamentar de Brasília, que sempre esteve junto com a gente. Foi a partir deles que eu conheci pessoas do PSOL de outros estados, até chegar no ponto do setorial ecossocialista reconhecer no meu nome como uma pessoa que seria interessante para compor essa disputa.

 

RUA: O Collor demarcou 112 terras indígenas, Itamar 89, FHC 118, Lula 81, Dilma 26 e o Temer 2. é uma tensão que o Lula e a Dilma tenham feito menos demarcações que Collor e FHC. Ao mesmo tempo, parte do agronegócio foi incorporada como prioridade para os governos PT. Qual o impacto dessa conciliação?

 

SG: É claro que tem um disparate muito grande em relação à quantidade de terras demarcadas, lógico que teve a conciliação nos governos do PT com a bancada do agronegócio. Mas é preciso ponderar uma coisa: nos governos FHC e Collor houve uma pressão muito grande internacional. Foi na década de 90, período que começou a discutir o aquecimento global, efeito das mudanças climáticas. O mundo inteiro olhou para a Amazônia com o olhar de que ela tinha que ser protegida como bem da humanidade. Houve um investimento e se formou uma cooperação internacional com o governo brasileiro para regulamentar territórios indígenas, esse número de demarcações foi na Amazônia pela pressão internacional. As outras regiões continuaram com um passivo muito grande de demarcação de terra. Até agora nenhum governo teve a coragem de enfrentar os setores que precisam ser enfrentados para fazer essa regularização. Para avançar com a demarcação de terra tem que haver um enfrentamento ao privilégio, ao poder econômico e ao poder político. Quase todos os empreendimentos do agronegócio estão ligados a algum deputado.

 

RUA: Qual a importância da demarcação desses territórios?

 

SG: O Brasil inteiro é originalmente indígena. Com a invasão europeia a partir de 1500, houve muita expulsão, massacre, extermínio de povos. Essa luta existe para ter o seu território de volta, considerando a sua ancestralidade, ali está o vínculo com a família, com os seus antecedentes, e isso pra gente é muito forte. Hoje, lutar pela demarcação de terra é a gente lutar pela devolução da nossa raiz e para garantir a continuidade da nossa identidade enquanto povo.

 

RUA: O que significou para os povos indígenas a aplicação de um modelo de desenvolvimento que resultou em momentos como Belo Monte?

 

SG: Não tem outra definição a não ser um desenvolvimento que só pensa no setor empresarial, no poder político, mas não chega para as pessoas, não respeita o meio ambiente. Muita gente olha para os povos indígenas como o obstáculo, estamos impedindo o crescimento do país. Nessa hora que a gente devolve a pergunta: crescimento para quem? Desenvolvimento para quem? Belo Monte hoje é um exemplo claro do que é o prejuízo desses empreendimentos na Amazônia. Fazemos uma defesa muito grande, nacional e internacional, para reconhecer o crime de ecocídio como um crime contra a humanidade, seja ele praticado por empresas ou governos. No caso de Belo Monte, houve um ataque brutal ao rio Xingu. Mudou o percurso do rio, contaminou o local, as pessoas não puderam mais utilizar aquela água, fazer seus rituais.

 

RUA: Quais as características de um modelo de desenvolvimento que respeita o meio ambiente e que seja socialmente justo?

 

SG: O modelo de desenvolvimento que pensamos ser o ideal é aquele que garante as condições para que as pessoas do campo permaneçam lá, garantindo seu modo de vida. Hoje, o agronegócio e as empresas fazem tudo com base no desmatamento, exploração do subsolo. É um modelo que não se sustenta por 50 anos. O desafio é fortalecer as iniciativas comunitárias, a agricultura familiar, daí você garante renda para quem está no campo. Investir em formação superior para as pessoas do campo se prepararem para trabalhar no próprio local de nascença.

 

RUA: Você tem percorrido muitos territórios indígenas e conversado com a juventude. Quais as demandas mais urgentes da juventude indígena?

 

SG: A juventude indígena anda muito desolada e deprimida. Não existem políticas públicas que atendam suas demandas, seja formação técnica e profissional, seja graduação. Os indígenas tem que sair da aldeia para ter curso superior. Mesmo quando conseguem acessar as universidades por meio das cotas, se não tem as condições de permanência na universidade, não ficam. Daí voltam para a aldeia e ficam tristes por não terem condições de trabalho, renda, esporte e lazer. É importante que a gente garanta inclusão da juventude indígena, tanto no ensino superior quanto no trabalho. Além disso, é necessário oferecer condições para que os próprios indígenas façam a gestão do seu território, desenvolvendo trabalhos conforme o modo de vida em comunidade. Na minha terra, por exemplo, tem um grupo de lideranças jovens que fazem o monitoramento da terra, uma atividade que deveria ser custeada pelo poder público, mas não é. Eles fazem por conta própria, mas faltam condições para continuarem.

 

RUA: Escutamos muito você falar da Mãe Terra – a Mãe de todas as lutas. Como se relacionam as lutas da Mãe Terra com a luta pelo socialismo?

 

SG:  A luta pela mãe terra é uma luta só. Não tem como você desvincular esses temas, porque enquanto não for responsabilidade de todos, enquanto não tiver consciência que sem território e terra não conseguimos os elementos naturais para garantir a vida, continuaremos com os ataques. Falta a sociedade como um todo ter esse despertar. Quem está na cidade não consegue conectar a água que bebe aqui com o que a terra oferece. Um dos principais motivos de lutar pela terra é a garantia da água, que é um bem que é para chegar a todo mundo, mas não chega para ninguém. O socialismo entra aí.

 

 

 

RUA: A Conferência Cidadã foi um dos grandes marcos dessa pré-candidatura – um momento que reuniu indígenas, sem-teto, lideranças políticas em um mesmo encontro – e que elevou o nível da unidade nas lutas diárias. O que representa esse marco para o futuro da esquerda brasileira?

 

SG: A Conferência Cidadã e nossa pré-candidatura estão sendo construídas com uma aliança muito forte entre os movimentos sociais e os partidos. É claro que ainda temos uma divergência programática muito grande com outros partidos de esquerda, mas no campo do movimento social representou um salto, um marco na história por ser a primeira vez com uma indígena na chapa presidencial. Essa aliança trouxe para esse campo de articulação vários outros movimentos. É um passo a mais trazer essa diversidade para o enfrentamento com a direita.

 

RUA: Você tem falado muito das lutas das mulheres também. Sabemos que as mulheres indígenas têm demandas específicas. De que forma é possível construir um feminismo que converse com as mulheres indígenas e negras?

 

SG: Há um machismo muito grande no Brasil e com os povos indígenas não é diferente. E para nós tem um fator a mais que é o fator cultural. Muitos povos utilizam essa desculpa para um impedimento para que as mulheres assumam determinados espaços. Uma ou outra mulher que se sobressai é porque não se submeteu, foi pra cima e ultrapassou a barreira. Nós mulheres sempre fizemos essa luta a partir das bases, sempre tivemos um papel importante nas aldeias e nos processos de decisão, embora não ocupemos o lugar de decisão, mas nos últimos tempos conseguimos avançar bastante. Hoje na Amazônia temos a Anara Baré, que é a primeira mulher a assumir a Coordenação Geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB). Não foi porque simplesmente todo mundo entendeu que era importante ela assumir, lutamos muito para isso. Fui vice-coordenadora na gestão passada, colocamos a Nara na coordenação para no ano seguinte ela ir para a coordenação geral. Agora o passo seguinte é ocupar a política institucional. Aqui em São Paulo temos 02 mulheres indígenas que estarão concorrendo ao parlamento. Uma para deputada federal em Bauru, e outra estadual na capital.

 

RUA: Os povos indígenas resistem há 518 anos no território brasileiro, e passamos por um momento que exige resistência. Que recado você daria para os jovens que estão sem esperança de verem mudanças no país?

 

SG: É indignação, viu? O povo tem que se indignar mais, se revoltar mais. E tem que se sentir responsável por essa mudança. A gente não terá mudança se não fizermos essa mudança acontecer. A juventude precisa acordar e reagir. O momento exige de nós uma reação imediata. A luta da juventude não é uma luta do futuro, é uma luta do presente.

 

 

Fotos: Juliana Mastracusa | RUA 

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