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ALIANÇA ARTIFICIAL APROVA O FIM DAS ELEIÇÕES DIRETAS PARA MODELO DE GESTÃO

 

Infelizmente nem tudo no congresso estudantil foram avanços. O modelo de gestão do DCE que era decidido ano a ano por todos os estudantes da UFRJ, em democracia direta, durante a eleição do DCE, foi cristalizado por uma maioria forçada no Congresso Estudantil. Nós, do RUA-Juventude Anticapitalista, havíamos proposto que todas as modificações estatutárias fossem realizadas por maioria qualificada (ou seja, com ⅔ dos votantes), como é feito na UNE e na maioria das entidades e sindicatos pelo país, por se tratar de mudanças muito importantes, não podem se dar com o movimento dividido. Porém, as forças políticas que compõem o movimento estudantil da UFRJ viram, na mudança estatutária por maioria simples, uma oportunidade de ganhar um debate que é derrotado pela maioria do movimento estudantil há 10 anos: aprovar o modelo de gestão majoritário.

Tanto que, essa foi a única votação que dividiu o plenário ao meio, todas as demais foram por ampla maioria. Nós do RUA, com os independentes e CAs importantes, fomos metade da votação, enquanto todos os movimentos (UJS, Kizomba, Levante, UJC e Correnteza) tiveram que se juntar para aprovar tal medida. E o movimento Juntos, que se absteve, declarando defender o modelo da majoritariedade em outras universidades, mas por reconhecer a tradição histórica da UFRJ em optar pelo modelo proporcional, achar a saída equivocada.

Para quem não sabe, a escolha é sempre feita entre proporcionalidade e majoritariedade. A proporcionalidade significa que, todas as chapas que participam do pleito vão ter representação na diretoria de acordo com a proporção dos votos que recebeu. Por exemplo, se tem 3 chapas, a chapa 1 teve 10% dos votos, a 2 teve 60% e a 3 teve 30%, elas vão ocupar as cadeiras respectivas a esta porcentagem. Na majoritariedade, a chapa que tiver mais votos leva a gestão, mesmo se tiver menos de 50% dos votos (se tiverem 8 chapas por exemplo, uma gestão pode ser totalmente composta por uma chapa que teve 25% dos votos).

Importante resgatar que a majoritariedade não só foi rechaçada nos últimos 10 anos de eleições de DCE, nas quais se aplicou o plebiscito, que nas últimas 3 eleições as chapas que a defendiam preferiram deixar de colocar o debate em seus materiais para não perder voto.

Entendemos que o modelo de gestão do DCE deve se adaptar à conjuntura, não é uma questão de princípio. Mas achamos que o modelo da proporcionalidade - tradicionalmente escolhido pela UFRJ - tem o maior potencial democrático. Não é fácil conviver com o diferente, mas achamos fundamental. O DCE da UFRJ deve representar 52 mil estudantes, que pensam diferente entre si, portanto a sua política deve buscar ser uma síntese entre a pluralidade de pensamento e não a cristalização de uma posição que faz maioria em um momento do ano.

Mais do que nunca, em tempos de golpe, o movimento estudantil precisa demonstrar maturidade para construir as lutas em conjunto. O DCE deve cumprir o papel de frente única política, uma entidade capaz de unificar as diferenças para propor ação. Achamos inclusive, que nessa gestão, com a participação ativa da oposição no seminário de gestão, nas reuniões da diretoria, do CEB e na construção do congresso, foram exemplos de que, se todo mundo estiver disposto, a proporcionalidade pode existir na prática. E ainda mais, se não somos capazes de criar sínteses entre os coletivos, com quem pretendemos dialogar?

Mesmo defendendo a proporcionalidade para este momento político, o que defendemos no congresso é que isso não fosse cristalizado no estatuto. Que o estudante pudesse decidir a cada eleição, em modelo de democracia direta como já vem sendo feito há décadas. E que os companheiros que apresentaram o debate da majoritariedade no congresso que o fizessem, de forma séria, para todos os estudantes da UFRJ.

Lamentamos profundamente, os estudantes da UFRJ perderam muito. Porém, como dissemos, a proporcionalidade tem o maior potencial democrático, mas não é através dela, por si só, que se faz a democracia. Afirmamos o nosso compromisso de continuar promovendo espaços amplos do DCE, reuniões abertas nos cursos, conselhos de CAs e assembleias. Além do que, mesmo com uma gestão majoritária, defenderemos que todas as reuniões do DCE deverão ser abertas e com relatoria postada.

Outra mudança no modelo de gestão foi criação de uma diretoria executiva. Acreditamos que em tempos nos quais a conjuntura demanda muita agilidade e respostas rápidas, este grupo reduzido de diretores deve entrar em ação em situações emergenciais e cumprir uma tarefa organizativa, pois terá maior facilidade em se reunir do que a totalidade dos 33 diretores do DCE. Discordamos, contudo, da defesa que separa a questão da democracia com a efetividade, similar ao velho discurso que separa a política da gestão. Para nós, uma gestão só pode ser efetiva se for democrática e, portanto, seu modelo deve estar a serviço da ampliação da participação. Criticamos quando movimentos apostam no presidencialismo ou no formato de executiva substituindo as instâncias gerais pelas reduzidas e gerando uma lógica fetichizada de hierarquia. Para nós, todos membros do DCE tem e deverão continuar tendo o mesmo peso e responsabilidade, apenas incubidos de tarefas diferentes.

Diversos CAs funcionam através da autogestão, assim como o modelo de gestão por pastas temáticas e todos eles já conseguiram ou conseguem garantir a funcionalidade e a democracia interna da entidade. Devemos respeitar a pluralidade do movimento estudantil e entender que a democracia vai para além da formalidade. Ela está na efetivação de espaços horizontais, no fortalecimento do diálogo diário com os estudantes e em mais estudantes entrando para o cotidiano das entidades estudantis.  

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