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Nem calados, nem submissos: a juventude quer trabalho digno!

 

 

A juventude é alvo do pior desemprego em 27 anos

 

Uma das principais preocupações de um(a) jovem no Brasil hoje é conseguir se inserir no mundo do trabalho com dignidade. Afinal, o desemprego para a população de 15 a 24 anos alcança 27,3% - um nível recorde no país em 27 anos (OIT). Carteira assinada, jornada de trabalho e condições de pagar ou ajudar nas contas familiares no fim do mês têm se tornado um sonho difícil de alcançar. Apesar de ser um dilema histórico, as respostas dadas à crise acirraram este problema estrutural: ou interrompemos o ciclo de desemprego e precarização na juventude, ou viveremos um futuro dramático de pobreza e desperdício de força de trabalho.

 

Somos o alvo prioritário do desemprego no Brasil e no mundo, já que o mesmo estudo da OIT aponta que a juventude representa mais de 35% da população desempregada em todo o mundo em 2017. A justificativa se dá pela superexploração: as empresas não querem investir em formação profissional, os governos não priorizam a educação e, para manter as taxas de lucro, vale tudo para precarizar os postos de trabalho e quem os acessa.

 

Não há garantias de inserção nem mesmo para aqueles que conseguiram concluir o ensino superior, levando muitos jovens e suas famílias a acumularem as dívidas que fizeram para acessar o ensino superior nos últimos anos. Segundo o SCPC Brasil, aproximadamente 6,3 milhões de jovens entre 18 e 24 anos estão com restrições no CPF, em razão de atrasos financeiros. Este número representa 26% (pouco mais de um quarto) da população brasileira compreendida nesta faixa etária.

 

Mulheres e negros continuam na ponta

 

Não podemos admitir que governantes e candidatos ignorem a urgência de respostas para a juventude brasileira que, historicamente, é trabalhadora, inclusive 63% dos jovens estão no mercado de trabalho ou procurando se inserir. Essa juventude tem gênero, raça e orientação sexual - e estes mecanismos de opressão se combinam a exploração para intensificar desigualdades sociais.

 

A situação de mulheres, que globalmente têm uma taxa de desemprego de 34,4% em relação a 9,8% de homens jovens (OIT), e de negros e pardos, que são seis em cada dez desempregados no Brasil (IBGE), é ainda mais grave. Nós somos a geração do nem nem, eles não nos deixam estudar, eles não nos deixam trabalhar... e se temos "sorte" trabalhamos muito e passamos horas no transporte para ganhar algo perto de um salário mínimo.

 

A combinação entre exploração e opressão de gênero e raça é incontornável. Não há como negar que estes mecanismos históricos de segregação no Brasil são ativados a todo instante e pioram em momentos de crise. As alternativas, portanto, devem levar em conta políticas de prioridade para mulheres e negros(as), sob pena de perpetuar a lógica de manutenção da pobreza e da desigualdade social - que se assemelham hoje a países em guerra, como a Síria.

 

Somos a geração da precarização

 

Os números de desemprego só não são piores pela expansão dos bicos e dos trabalhos autônomos. Nós somos daqueles nos piores postos de trabalho, os "temporários", “freelas”, aqueles que têm contratos segregados e precários. Quem está no call center, como motoboys ou ubers, nos supermercados, no fast food e catando cana.  

 

Nós somos aqueles que não conseguem sair da casa dos pais, ou que tivemos de voltar para ela, os que acabaram despejados, aqueles que suam para pagar o aluguel ou temem não conseguir. Somos conhecidos como uma das gerações com mais formação e com mais precarização. Nós somos os bolsistas da universidade, somos os que trabalham de graça como “trainees”, os precários estagiários, e os que sofrem na linha de frente com “chantagens” ou demissões.

 

Nós somos os que são deixados à margem por lideranças sindicais burocratizadas, para quem não convém que nos organizemos para exigir nossos direitos, que não se preocupam em ensinar aos jovens as tradições de luta da classe trabalhadora com as quais tantas conquistas foram alcançadas, enquanto seguem pactuando com retrocessos dos governos e freando as lutas.

 

Quanto menos ganhamos, mais temos que trabalhar. A intensificação do trabalho se reflete, direta ou indiretamente, em nossa perda de saúde física e mental, se não de nossa própria vida. Em tempo para viver a juventude, para lazer, cultura, arte e esporte.

 

Somos ensinados a “empreender”, mas o que isso significa?

 

Para tentar amenizar a calamidade social que vivemos, o novo dicionário “corporativo” tenta maquiar uma velha realidade através de novos termos, como “colaboradores”, “parceiros”, “responsabilidade social”, “sinergia”. É preciso ficar alertas: “flexibilidade” e “engajamento” são termos utilizados para acabar com jornada de trabalho e salário digno.

 

A maioria de nós nunca viu muitos zeros na folha de pagamento, mas conhecemos bem as horas extras "voluntárias" e não pagas para fazer frente às despesas de um mês que é sempre maior que o salário. “Empreender” vira uma aposta, que não temos certeza alguma do desfecho final. Uma palavra mais bonita e nova para algo velho: terminarmos vendendo doces ou salgados, sem carteira assinada ou qualquer direito e cada vez mais longe da perspectiva de aposentadoria.

 

Sem falar no trabalho “voluntário”, que torna-se um consolo imposto de modo quase compulsório. Duas falsas soluções, quando se pensa em uma sociedade que dê segurança e qualidade de vida para todos e não apenas para uma minoria, ainda que perfeitamente compreensíveis para aquele/as que os praticam, pois esta é nossa realidade hoje. Mas também é preciso acreditar e defender que valemos muito mais que isso.

 

Um futuro com trabalho digno é possível

 

A reforma trabalhista aprovada pelo golpista Temer deteriorou o trabalho. Era esse o objetivo: favorecer o interesse dos patrões e oferecer falsas soluções aos trabalhadores, alegando a possibilidade de criar mais vagas, nas piores condições. Nem a ditadura militar teve coragem de mexer na CLT e Temer, não eleito e não legítimo, o fez. O pleno emprego propagandeado pelo governo Lula, possibilitado também pela Lei das Terceirizações, que teve aspectos positivos porque estava associado a uma política de valorização do salário mínimo, demonstrou sua fragilidade após o golpe.  

 

Os ganhos de enfrentamento à pobreza e a miséria alcançados nos governos do PT não abalaram nenhuma estrutura da sociedade e, por isso, estamos vendo rapidamente os índices se inverterem. Por isso, acreditamos que o tempo de buscar conciliar os interesses das diferentes classes acabou. Qualquer tentativa de mexer apenas na ponta do iceberg vai elevar ainda mais a temperatura da panela de pressão que virou o Brasil.

 

Por isso, revogar a Reforma Trabalhista é a tarefa número 1 para quem quer, de fato, um futuro com dignidade para a nossa geração, atualmente subutilizada e precarizada. É preciso reverter o ônus da crise sobre os mais ricos - aqueles que estão “se dando bem” com a crise. Não dá mais para a crise ser  jogada sobre os nossos ombros, com desemprego em massa, desmantelamento de serviços públicos, das pensões e das aposentadorias. É hora de aprovar uma reforma tributária, para aqueles que ganham mais pagarem mais. Nada mais justo!

 

Além disso, uma plataforma de defesa do trabalho digno para a juventude deve incorporar:

  • a redução do horário de trabalho para as 30 horas semanais, sem redução de salário, para todos terem emprego com direitos;

  • o respeito às normas internacionais do trabalho, em especial aos princípios e direitos fundamentais do trabalho (liberdade sindical e reconhecimento efetivo do direito de negociação coletiva);

  • a eliminação de todas as formas de trabalho forçado; abolição efetiva do trabalho infantil;

  • a eliminação de todas as formas de discriminação em matéria de emprego e ocupação;

  • queremos o fim do banco de horas; o combate a todas as formas de precariedade e a extensão da proteção social.

 

Somos os nem nem: NEM vamos calar a boca, NEM vamos deixar que pisem em nós.

 

A juventude anticapitalista do RUA é parte daqueles que querem se organizar nos locais de trabalho, que querem ser capazes de contra-atacar, participar de assembléias e sermos capazes de nos defender contra tanto abuso dos patrões e governos.

 

Somos parte daqueles que querem lutar pela união de todos os trabalhadores, sejam eles permanentes, temporários ou subcontratados, aqui ou lá fora, jovens ou velhos. Que querem lutar para que ninguém ganhe menos para fazer o mesmo trabalho, para que os temporários não sejam punidos, nem os que têm carteira assinada, para que não haja mais abusos, demissões ou cortes de direitos.

 

Somos os que não confiam nas instituições políticas desse regime que nos deixa na miséria. Nós somos aqueles que vão lutar para recuperar nossos próprios instrumentos de organização do trabalho, sejam sindicatos ou assembleias, para que sejam democráticos, à real serviço dos trabalhadores!

 

Se você também não quer calar a boca, se você não quer se deixar ser pisado, se você acha que valemos mais do que isso e você quer começar a se organizar com outros jovens trabalhadores. Convocamos todos os jovens a dizerem basta, contra o desemprego e a precariedade, em todos os espaços, mas, fundamentalmente, na RUA!

 

*Deborah Cavalcante é mestranda na UNICAMP, militante do RUA SP e é integrante da Coordenação Geral do RUA. 

Julia Bustamante é mestranda em economia da UFRJ, militante do RUA RJ e é integrante da Coordenação Geral do RUA.

 

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