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Juventude e Jornadas de Junho de 2013

 

 

 

Jornadas de Junho

“Quando achamos que temos todas as respostas vem a vida e muda todas as perguntas”

Luis Fernando Veríssimo.

 

Em Junho de 2013, um milhões de pessoas indignadas foram às ruas. Em Duque de Caxias, cidade onde moro e participei do que ficou conhecida como “as Jornadas de Junho”, foram 40 mil, que lições podemos tirar desse momento que marcou o País?

 

Apesar de parecer um fato isolado, movimentos como este já vinham ocorrendo em diversos lugares do mundo, em Istambul na Turquia, a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street nos E.U.A, os Indignados da Espanha, por motivos como o desemprego, a crise econômica do sistema capitalista e os regimes autoritários.

 

O Movimento Social ficou atônito, bem antes de 2013 já estavam em luta, acreditavam na rebeldia da população e denunciavam uma sequência de questões, mas eram sempre muito pequenos, quando em junho de 2013 por um aumento de R$ 0,20 da passagem , a população tem seu estopim indo às ruas e levando para o cotidiano dos transportes, do bares, de igrejas, escolas, das rodas de amigos o debate político. Porém as ferramentas tradicionais da esquerda não foram as suas principais impulsionadoras, então o que foi? Onde estava antes todas aquelas centenas de milhares de pessoas que pareciam ter acordado? Aliás quem eram elas? Que vieram às ruas com todas suas contradições, Contradições que surgiram por quê? Seriam apenas por R$ 0,20? O que aconteceria depois daqueles fatos?

 

Um bom caminho para tentar descobrir, é se questionar sobre como todas aquelas pessoas se encontraram ali? Não foram pelas passagens em sala da esquerda existente até aquele momento, que mesmo importante, não alcançava todas aquelas pessoas, às vezes falavam para si mesmo ou não sabiam onde estavam aquelas pessoas, porque procuravam nos mesmos locais. Se não foram por esses métodos, como chegaram ali? As redes sociais pareciam ter tido um papel fundamental para que isso tenha acontecido. Pareciam ser pessoas bem diversas, porém em sua maioria jovens, que se antes eram apáticos, agora estavam em busca de participação, pelos cartazes víamos que suas reivindicações eram variadas, pareciam rejeitar uma lógica hierarquizada, sem haver líderes, porta-vozes ou representações.

 

Uma análise é que ali foi quebrado o sentimento de bem estar social adquirido pelo governo do Partido dos Trabalhadores, que ganhou porte de partido de massas por ser um polo aglutinador das mobilizações pós-ditadura militar e que no poder, realizou uma sequência de benefícios sociais como minha casa minha vida, bolsa família, cotas raciais e sociais, ampliação de vagas nas universidades, construiu cisternas em áreas de grandes secas, entretanto se distanciaram das suas raízes ideológicas, aplicando um projeto de conciliação dos interesses da burguesia, fazendo a amortização das lutas sociais com a burocratização dos sindicatos, associações de moradores e entidades estudantis. Apostaram em um modelo de desenvolvimento que se esgotou devido à crise econômica internacional, que governou através das estruturas de uma democracia representativa, permeado por interesses das elites, com instituições corrompidas, fatores este que somados levaram a uma crise de representatividade.

 

Ali começava nascer um novo momento político, com todas as dores que o nascimento causa para gerar o novo, vinha à existência uma nova geração política no Brasil, ainda em disputa, entre a direita e esquerda, que promoveu o surgimento de novas ferramentas e organizações, estamos no meio desse processo, fazendo os balanços do passado recente.

 

*Nota: esse texto foi escrito antes do golpe jurídico, midiático, parlamentar ocorrido em 2016.

 

O que é ser jovem?

 

“Eu vejo na TV o que Eles falam sobre o jovem não é sério

O jovem no Brasil nunca é levado a sério”

Charlie Brown Jr.

 

Podemos definir o conceito de juventude, de diferentes formas, como o estatuto da juventude, que define como “aqueles e aquelas entre 15 e 29 anos”, podemos considerar um período da vida entre a infância e maturidade, de transformação fisiológica ou até um estado de espírito, contudo cabe a nós fazer uma análise desse conceito a partir do recorte de classe.

 

No sistema capitalista, que se baseia na propriedade privada, onde a única forma de sobrevivência daqueles que não possuem o meio de produção é a venda da sua força de trabalho. A juventude é o momento de ingresso nesse mercado, sendo mais rápido esse processo nas famílias de baixa renda e mais demorado nas famílias de classe média, tendo em vista o estímulo ao ingresso na universidade e as condições sociais para tal.

 

Somos o elo mais fraco na cadeia de exploração, somos nós que ocupamos os postos mais precários, somados às opressões do machismo, racismo e lgbtfobia, cabe a nós os balcões das redes de fast food, das empresas de telemarketing, as lojas de comércio e outros.

 

Nos últimos anos vemos uma tendência à mundialização do “exército de reserva”, aquela parcela da população que fica à espera que seja possível sua participação no mercado de trabalho. Além da descentralização das forças produtivas de forma mais favorável ao capitalismo, à flexibilização do trabalho vem sendo implementada como uma forma de não garantir direitos trabalhistas. Tudo isso tem causado impacto fortíssimos nos salários, pressionando-os para baixo e causando uma dura concorrência, a ponto da remuneração salarial não garantir nem mesmo sua sobrevivência ou reprodução, além de causar um desemprego crônico.Nessa fase também se manifestam os conflitos dentro do ambiente familiar (socialmente hierarquizada), tendo em vista a conformação de pensamentos e hábitos de um novo sujeito, o jovem, que ainda depende financeiramente de outros.

 

Outro conceito que precisamos iniciar a discussão é o de juventude de forma mais plural, menos heterogênea, compreendendo as diferentes realidades e vivências.

 

No Brasil falar sobre desigualdade social é muitas vezes falar sobre racismo e parte dos nossos jovens estão para além da posição de exército de reserva, não servem em nada ao sistema e são considerados matáveis. O estado opera um verdadeiro genocídio, para controle de uma parte da população, que foi retirada dos centros e colocada nas periferias, que tem suas expressões artísticas criminalizadas, que lhe foi negada a terra, pelos mesmos que invadiram as terras indígenas. Os jovens universitários em sua maioria estão nas universidades privadas que possui altas mensalidades e um ensino mais precário. Os poucos que estão na universidade pública, que vem passando por uma grande tentativa de tornar precário devido a cortes na educação, não conseguem ter uma garantia de permanência, já que a assistência estudantil é insuficiente. Os Jovens secundaristas, que estudam em escolas públicas têm uma educação repressora que serve para formar mão de obra barata em escolas sucateadas. Os jovens das Metrópoles vivem diferentes dos jovens de aéreas rurais, que muitas vezes tem que ir para as metrópoles em busca de estudo e melhores condições de vida. Já as jovens mulheres são cotidianamente assediadas e correm a todo o tempo o risco de serem violentadas. Os jovens trans são expulsos de casa e não tem direito a uso do nome social e geralmente acabam tendo que abandonar sua vida acadêmica, ou as jovens lésbicas que sofrem com a hipersexualização e muitas sofrem estupro corretivo, ou os jovens gays ou os bissexuais. Em síntese, existem muitas juventudes, olhar para essa nova geração é tentar entender cada uma das formas de opressão sofrida por esses setores, que lutam e resistem para não se tornarem apenas números.

 

Novas Formas de Organização das Juventude’s

 

“E com o bucho mais cheio comecei a pensar

Que eu me organizando posso desorganizar”

Nação Zumbi

 

Sempre existiram coletivos de juventude geralmente como um setor de um partido, no Brasil historicamente esses coletivos atuavam no movimento estudantil porém recentemente têm surgido coletivos com essa característica nova de serem mais amplos, isto é, abranger outros perfis de jovens, em alguns casos diversos perfis.

 

Outro ponto novo é que em diferentes graus (levando em conta grupos que os originaram e suas fontes de financiamento) esses coletivos buscam autonomia em relação a governos e partidos, isto é que suas decisões são tomadas pelas pessoas que fazem parte daqueles coletivos, uma lógica: “Nós por nós”, mesmo que tenham visões de mundo próximas a outras instituições.

 

Nesse momento, a noção de coletivo para organização dos jovens é interessante, no sentido de combater o individualismo, tendo em vista que essa é uma vitória do neoliberalismo na juventude. Só de se entender a importância de se juntar para disputa de um pensamento e o desenvolvimento coletivo de ações, pode ser considerado uma vitória.

 

Outro elemento importante presentes nesses coletivos que organizam a juventude, atualmente é o diálogo com as redes sociais, um espaço importantíssimo, de uso cotidiano dessa geração, podendo ser um espaço alternativo tendo em vista que a grande mídia é um veículo controlado, é claro, compreendendo os limites e problemas que também têm as redes sociais.

 

São coletivos de jovens radicais, não no sentido extremista da palavra, mas no sentido original, de irem à raiz dos problemas, de buscarem respostas sobre questões mais estruturais como Estado, o sistema econômico, condições humanas de gênero, raça e sexualidade, mesmo que ainda com debates bastante abertos. Nas jornadas de junho já tinha uma sinalização sobre isso, no meio do debate sobre ações diretas como ataques a vidraças de bancos e outros símbolos do sistema capitalista, aqui não quero expressar opinião sobre a polêmica, porém revelava que existia um questionamento ao sistema vigente.

 

*Wesley Teixeira é militante do RUA - Juventude Anticapitalista em Duque de Caxias, constrói o Amanhecer contra a Redução, a Casa BXD, o Jornal Voz da Baixada, é Coordenador do Pré Vestibular Popular +NÓS, membro do Movimento Negro Unificado e Colunista do Esperançar.

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