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Os tempos pedem mais: reflexões iniciais do RUA USP sobre as eleições do DCE

11.11.2017

 

PARA OS QUE VIRÃO
 


Como sei pouco, e sou pouco, 
faço o pouco que me cabe 
me dando inteiro. 
Sabendo que não vou ver 
o homem que quero ser. 
 
Já sofri o suficiente 
para não enganar a ninguém: 
principalmente aos que sofrem 
na própria vida, a garra 
da opressão, e nem sabem. 
 
Não tenho o sol escondido 
no meu bolso de palavras. 
Sou simplesmente um homem 
para quem já a primeira 
e desolada pessoa 
do singular – foi deixando, 
devagar, sofridamente 
de ser, para transformar-se 
— muito mais sofridamente — 
na primeira e profunda pessoa 
do plural.
Não importa que doa: é tempo 
de avançar de mão dada 
com quem vai no mesmo rumo, 
mesmo que longe ainda esteja 
de aprender a conjugar 
o verbo amar. 

É tempo sobretudo 
de deixar de ser apenas 
a solitária vanguarda 
de nós mesmos. 
Se trata de ir ao encontro. 
(Dura no peito, arde a límpida 
verdade dos nossos erros.) 
Se trata de abrir o rumo. 

Os que virão, serão povo, 
e saber serão, lutando.

 

Thiago de Mello

 

 

 

Nesta última semana, aconteceram as eleições da gestão 2018 do DCE Livre da USP, que teve como vitoriosa a chapa Nossa Voz, dirigida pela juventude do PT, Levante Popular da Juventude e UJS. Nas últimas gestões e na chapa “Pode Chegar e Não Para”, construída junto a companheiros da Oposição de Esquerda da UNE, nós nos esforçamos para a construção de campo à altura dos desafios de nosso tempo histórico: orientado pela necessidade da máxima unidade entre os de baixo para amplas mobilizações de resistência contra a agenda de ataques e contra a direita que avança em nosso país e nas universidades. Lamentamos o resultado da eleição, mas, na política, luto pra gente é verbo, e esperamos que ao menos esse processo sirva para reoxigenar o movimento da universidade, por dentro e por fora do DCE. Ainda, é tempo de reflexão e reinvenção daqueles que estiveram na gestão do DCE e é esse nosso esforço aqui, em direção a uma reorganização do conjunto do movimento.

 

          Parabenizamos os companheiros da Nossa Voz pela vitória nessas eleições. Nunca deixamos ou deixaremos de explicitar nossas diferenças com o projeto político expresso pela direção desse grupo: para nós, a estratégia da conciliação de classes, seja no governo ou no movimento estudantil, é destrutiva para aqueles que sonham e lutam por outro futuro. Hoje podemos fazer esse debate com os companheiros no cotidiano do movimento, ao contrário do que foi no passado. É a favor do movimento estudantil que atuamos e, por isso, torcemos para que os companheiros façam uma boa gestão e iremos atuar pela base para que o DCE siga impulsionando uma atuação combativa do movimento estudantil.

 

           Os tempos pedem muito. Em terra de Michel Temer, MBL, Zago e Vahan, cada erro custa caro, não só para quem o comete, mas para o conjunto dos explorados e oprimidos. Por isso, não temos como deixar de ressaltar a necessidade de que a nova gestão do DCE não reproduza os erros que cometeu enquanto campo no passado e que ainda comete em muitos âmbitos hoje: nenhum direito da classe ou pauta que representa seus interesses podem ser rifado, nenhuma ilusão de acordo com a extrema-direita e a direita, em todas suas variações, pode ser alimentada. Esperamos também que essa nova gestão passe a apostar como sua prioridade em espaços de unidade do movimento estudantil, com os métodos próprios de auto-organização e mobilização desse movimento, e que o coloque em aliança com os demais movimentos sociais da universidade e de fora. Nossos passos vêm de longe e há acúmulos históricos desses movimentos que não podem nunca ser ignorados ou atropelados. Nós, fora da gestão do DCE, lutaremos para que isso aconteça!

 

           Também porque os tempos podem muito, a necessidade é de profunda reflexão e reinvenção do conjunto do movimento estudantil e, particularmente, do campo anticapitalista do qual fazemos parte. A autocrítica não pode ser uma palavra tabu ou só usada como cobrança aos outros. O conjunto do petismo se reorganiza nacionalmente e é preciso que a gente reflita a sério o que permite seu avanço dentro da esquerda. Fato é que a chapa “Nossa Voz”, apesar de, na nossa opinião, não ter apresentado um programa de fato à altura dos nossos desafios, indo contra a incorporação de acúmulos históricos e reivindicações concretas de entidades estudantis e sindicais na universidade, conseguiu canalizar praticamente tudo que havia de insatisfação com a gestão atual e de desilusão com o movimento – boa parte delas legítimas e que precisam ser reconhecidas. Se é verdade que um discurso mais genérico programaticamente e o uso de um enorme aparato colaboraram para o ganho dessa chapa, os motivos políticos não podem ser subestimados. O esvaziamento do movimento geral é uma realidade reconhecida por todos, mas que não conseguimos chegar a uma resposta enquanto campo político. Há muito já havia passado da hora de reerguermos o movimento estudantil e de reconstruí-lo olhando para seus erros e seus acertos. Um movimento estudantil que abandone a própria proclamação e o cada um por si, que saiba que, por mais justas que sejam nossas pautas, elas pouco valem se não são incorporadas pelos estudantes e levadas à frente unitariamente. Um movimento que consiga abarcar a diversidade do movimento estudantil e responda às demandas dos estudantes, em especial a partir da adoção das cotas. Um movimento que supere o engessamento de seus métodos e a incapacidade de sínteses conjuntas, justamente para responder politicamente aos nossos desafios.

 

Ainda, é tarefa nossa reconhecer que o esse outro projeto cresce nacionalmente e na USP também a partir de um erro de parte do campo político que estivemos construindo, de subestimação da gravidade do momento que vivemos e de reprodução de um sectarismo que titubeia na unidade contra a direita e em defesa do nosso futuro. Alguns setores infelizmente ainda não perceberam que o golpe sofrido muda qualitativamente as condições de nosso país e que não é possível nenhuma ilusão de que nos bastamos. Além disso, pelo mesmo motivo, confundem aliados como inimigos e vice-versa, como demonstrado em recusas de unidade com setores petistas ou também com o apoio ao desenvolvimento da Lava Jato.

 

Em alguns momentos, encontramos dentro da nossa gestão entraves a serem superados, decorrentes de linhas divergentes das diversas organizações que a compunham. Mesmo já reconhecendo essas falhas na nossa própria gestão, optamos por estar dentro dela, por achar que ela cumpriu um papel essencial de manter a USP na rota de mobilizações e de enfrentamento à direita no país e na universidade, com uma entidade que nunca teve dúvida de seu lado nem saiu das ruas. Ao mesmo tempo, nunca deixamos de apresentar nossas críticas e autocríticas, como expresso em diversos textos nossos de balanços de processos políticos na universidade, e na nossa atuação cotidiana. Para nós, estando ou não na gestão, disputamos e disputaremos nossa entidade para que seja um instrumento de unidade entre os movimentos: um instrumento vivo, dinâmico, que seja a síntese entre as diferentes experiências e opiniões vividas na universidade, dos mais diversos coletivos locais, grupos organizados e militantes independentes e que tenha forças para responder às demandas dos estudantes e conquistar vitórias para um projeto de universidade democrática e socialmente referenciada. E para fazer jus à sua tarefa histórica, um DCE que seja linha de frente do enfrentamento ao golpismo, ao fascismo e à direita que governa nosso país. Tudo isso só poderia e pode ser feito a partir de uma cultura política compatível com nossos desafios: ou seja, um modo de fazer política pautado pela solidariedade de classe, pela honestidade, pelo debate político, franco, e respeitoso, pela busca de sínteses e de unidade de ação. Já passou da hora de o conjunto dos setores do movimento assumirem essa necessidade.

 

        Daqui pra frente, da nossa parte, não temos dúvida do caminho que seguiremos trilhando: orientados pelas mesmas tarefas que destacamos hoje. Seremos oposição ao projeto político da nova gestão do DCE, mas jamais nos renderemos à uma lógica de desconstrução irresponsável do movimento estudantil, utilizando métodos puros de denúncia que “jogam o bebê junto com a água do balde”. Vamos atuar para fortalecer o movimento estudantil e nossas ferramentas, para organizar a máxima unidade entre aqueles que resistem e enfrentar os nossos inimigos que se fortalecem. É nesse sentido a atuação do RUA na Frente Povo Sem Medo, que reúne movimentos de diversos setores da esquerda, como o MTST, centrais sindicais e UNE, nas ruas contra os retrocessos impostos ao nosso povo. Queremos trazer cada vez mais iniciativas do tipo para dentro da USP e atuar no cotidiano dos cursos, nos Centros Acadêmicos, nos coletivos de combate às opressões, nos coletivos de extensão e em todas as formas de movimento em que já atuávamos e que se tornam ainda mais centrais. Hoje, estamos na base de duas greves de estudantes na USP, de Relações Internacionais contra o golpismo da burocracia e de Medicina em defesa do Hospital Universitário, que nos inspiram para seguir! Dentro ou fora da gestão do DCE, é na luta unitária que estaremos!

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