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UMA NOVA FASE DO RUA NA USP

14.6.2017

 

 

Devido ao modo pelo qual se desenvolveu as articulações dentro da chapa “Lutar e Mudar as Coisas” após as tiragens de delegados para o Congresso da UNE na USP, nós, do RUA – Juventude Anticapitalista, publicamos este texto sobre o modo que iremos atuar na USP no próximo período. Queremos deixar nítido que esta nossa mudança se dá devido a uma mudança de funcionamento do campo político em que atuamos na universidade, com o coletivo Juntos! se comportando de maneira hegemonista em relação aos demais coletivos, e não devido a diferenças políticas existentes entre os coletivos, que não achamos menores mas que acreditamos que podem ser transformadas em sínteses e atuações conjuntas. Esperamos que com este texto possamos contribuir para a construção de um movimento estudantil democrático e combativo na universidade, que traga vitórias para os estudantes e para toda população brasileira.

 

DE ONDE PARTIMOS?

 

Vivemos tempos de profundas mudanças políticas, econômicas e sociais em nosso país. O golpe perpetrado por Temer teve como intuito mudar radicalmente a qualidade de ataque aos direitos historicamente conquistados pela população. Nós, do movimento Rua – Juventude Anticapitalista, acreditamos que é urgente uma ampla unidade dos de baixo parar barrar os ataques em cursos, como a reforma da previdência e a trabalhista, e devolver para a população o direito de escolher seus governantes, através das eleições diretas e gerais já. Apostamos por isso na Frente Povo Sem Medo enquanto frente de unificação dos lutadores em torno dessas batalhas, assim como outras iniciativas como essa, que se orientem pela unidade e radicalidade.

 

Analisar uma mudança de período como essa não é uma tarefa simples. Acreditamos ser natural que organizações políticas façam diferentes leituras sobre o momento pelo qual estamos passando, e temos uma concepção de construção de movimentos que valoriza o que nos unifica, pois só assim conseguimos obter vitórias. Porém, nessa busca pela unidade não podemos esconder nossas diferenças, já que muitas vezes elas podem nos levar a movimentações que consideramos erradas.

 

A primeira importante diferença, para nós, é a opção dos setores petistas de seguir apostando em uma postura conciliatória com os partidos da ordem, seus agentes e as empresas, tidos todos como aliados possíveis. Assim, não abandonam a estratégia que nos levou justamente ao golpe de hoje. Isso divide diferentes campos políticos dentro e fora da USP, apesar da necessidade de que se mantenham unidos na luta cotidiana, e é por isso que nos localizamos junto aos setores que, conosco, compõe a atual gestão do DCE e a Oposição de Esquerda da UNE.

 

Mas também em nosso campo, as diferenças existem e se acentuaram no desenrolar da crise política. A partir de diferentes leituras do significado do impeachment e do momento atual – para nós, trata-se de um golpe que inaugurou uma fase definitivamente regressiva e que impõe a frente única entre todos para resistir enquanto centro das nossas necessidades – é possível identificar diferentes saídas propostas para a atual crise política. Alguns setores se recusam a se jogar na frente única, insistem em continuar tratando o PT enquanto inimigo central quando este já saiu do governo, ou acreditam ser progressivo que esta crise seja resolvida pelo poder judiciário – mais precisamente pela Operação Lava-Jato –, desconsiderando que este poder é um dos mais corruptos e antidemocráticos do país e que o fortalecimento da “justiça” para resolver problemas políticos tem como consequência o endurecimento do regime penal em que estamos inseridos, tentando terceirizar o serviço que deveria ser feito pela luta auto-organizada.

 

Mesmo com estas diferenças centrais, nós do movimento RUA – Juventude Anticapitalista acreditamos que a pior saída existente é o aprofundamento da fragmentação da esquerda, pois isso só fortalece quem está no poder. Por esse motivo, temos composto com diversos coletivos (atualmente com Juntos!, Mais, UJC, Vamos à luta e Socialismo ou Barbárie) a gestão do nosso DCE por mais de seis anos e acreditamos que nesse período a construção desta unidade foi e ainda é fundamental para barrarmos os ataques que existem dentro e fora da universidade, colocando a nossa entidade a serviço da auto-organização dos estudantes.

 

A USP EM SINTONIA COM O GOLPISMO E OS AJUSTES

 

Na USP, temos uma reitoria sempre alinhada com o que há de pior na política nacional. Escolhido pelo governador Alckmin (PSDB), o atual reitor Marco Antônio Zago aplicou um autoritarismo de dimensões impressionantes até para os padrões da USP. Atropelou continuamente a voz da comunidade universitária e usou da Polícia Militar para aprovar um pacote de medidas, ajustes e ataques, à revelia da opinião de estudantes, funcionários e professores, precarizando a universidade e abrindo-a cada vez mais para a iniciativa privada – o maior exemplo disso sendo a “PEC do Fim da USP”. Como se não bastasse, a reitoria ainda tenta acabar com as Creches na USP, encaminhar o despejo do Sintusp e ameaça diversos espaços estudantis.

 

Nos próximos meses, em consonância com o golpismo nacional, a burocracia USPiana buscará eleger um novo reitor de forma indireta, com baixíssima participação da comunidade universitária e palavra final de Alckmin. Isso torna necessária a luta por eleições diretas também dentro da USP, com um candidato que expresse o acúmulo dos movimentos sociais da universidade.

 

Além disso, o Conselho Universitário e o governo estadual do PSDB seguem impondo um modelo de universidade elitista e racista. É um completo absurdo que em pleno 2017 seguimos tendo uma universidade pública que não implemente cotas raciais e sociais como forma de minimamente democratizar o acesso à universidade e reparar uma dívida histórica. Por isso, precisamos urgentemente fortalecer a luta por Cotas na universidade.

 

É ANDANDO QUE SE FAZ A CAMINHADA

 

Diferentemente de entidades dirigidas pelo campo do PT e do PCdoB, o DCE Livre da USP conseguiu manter na última década uma política independente e combativa, que enfrentou governos e reitorias apostando na auto-organização dos estudantes em aliança com os movimentos sociais de dentro e fora da universidade. Mantê-lo assim segue central.

 

As diferenças entre os coletivos que compõem o DCE não são irrelevantes e nunca as escondemos. Nossa tônica, entretanto, foi de apostar nos debates e na disputa das nossas diferenças, centralmente, por meio da dinâmica interna da gestão. Há seis anos construindo esse campo político, raramente optamos por fazer de nossas diferenças o centro de nossas defesas públicas. Acreditamos que não é do isolamento, do cada um por si e do sectarismo – ou seja, da repetição das próprias afirmações para si sem reconhecer suas limitações e exercer a disposição de sínteses – que pode nascer uma nova esquerda.

 

O marco para que todo esse processo fosse possível foi uma relação de democracia, compromisso, respeito e mútua disposição para a construção conjunta, construída progressivamente nas gestões do DCE e exercidas no movimento estudantil. Sempre houve um acordo entre nós de que os posicionamentos da gestão deveriam ser as sínteses construídas entre as diferentes posições presentes na gestão, e não a posição de somente um dos setores que compunham a mesma imposta ao restante. Foi isso que permitiu que nós, do RUA – Juventude Anticapitalista, mesmo sendo minoria em todas essas gestões, trabalhássemos nossas diferenças e fizéssemos nossas disputas, centralmente, internamente nessas gestões. Foi por isso, inclusive, que a maior parte de nossas forças no último período foi voltada para a construção dessas gestões, inclusive em suas tarefas mais ingratas e invisíveis.

 

MUDANÇA DO CHÃO, MUDANÇA DO CAMINHAR

 

Para nós, esses marcos foram alterados com a eleição recente do Congresso da UNE na USP. Construímos a chapa da Oposição de Esquerda da UNE com toda nossa dedicação, colaborando nos operativos de construção da própria chapa e, ainda, da eleição. Não sem dificuldade, conseguimos chegar a um programa comum da Oposição de Esquerda da UNE. Isso em um período diretamente precedido da nova delação da JBS, que acentua as diferenças políticas citadas entre os setores que a compõe. Mas, a partir da Lutar e Mudar as Coisas, pudemos de fato disputar uma saída para a crise no país.

 

Como de costume, após a eleição, cada chapa se reúne internamente para pensar a distribuição de seus próprios delegados, de forma proporcional a cada setor que construiu a chapa. Não sem surpresa nos deparamos com a proposta final do Juntos! de que nosso coletivo tivesse somente um delegado da universidade. Sim, de 29 delegados que a Oposição de Esquerda da tirou na USP, o Juntos! credenciou apenas um delegado do RUA – Juventude Anticapitalista.

 

Essa proposta de proporção foi feita pelo Juntos! sem se basear em um mapa da presença de cada setor, a partir de critérios pensados coletivamente, como é a praxi da Oposição de Esquerda. Em quaisquer critérios numéricos que fossem usados para divisão dos delegados esta proposta do Juntos! era descabida e isso era de comum acordo entre todas as demais forças políticas, fazendo com que a divisão se desse em cima de negociata distante da realidade da base da universidade e às custas de menosprezo pelos demais coletivos e atropelo de suas opiniões.

 

O hegemonismo antidemocrático que permitiu esse processo se torna mais grave, e não à toa coincide, com o contexto de enormes diferenças políticas que o Juntos! tem hoje com a maioria dos setores da chapa e da gestão, e, particularmente, conosco. Que fique claro, não achamos que por si essas diferenças políticas justifiquem a mudança de marcos, mas sim a sua existência em uma composição que deixa de se pautar pela democracia – que possibilitaria, em tese, o trato dessas diferenças. Tanto é que pudemos manter e queremos continuar uma relação de apoio e construção conjunta com todos os demais coletivos que compõe o DCE. Mas, se o Juntos! optou por impor essa maioria antidemocrática no caso da divisão de delegados, o que nos dá garantia de que não farão o mesmo sobre sua linha política e sobre o conjunto de suas práticas?

 

Se alterou o chão que pisamos, e por isso se alterará nossa forma de caminhar. Não há mais marcos de funcionamento e tratamento que nos permitam, e deem sentido, a movermos todas nossas forças para a disputa e construção interna da gestão do DCE, como sempre fizemos e, a partir de agora, não nos furtaremos em disputar os rumos do movimento por fora da gestão e priorizaremos outros espaços de construção coletiva.

 

MAS SÓ AGORA COMEÇARAM A EXISTIR ESSAS DIFERENÇAS?

 

Definitivamente, nossas diferenças de política e cultura política com o restante da gestão do DCE, principalmente com os companheiros do Juntos!, não vieram de hoje. Além das diferenças políticas já destacadas anteriormente, compartilhamos ao longo do tempo inúmeras outras diferenças com a forma de construção desse coletivo dentro e fora da USP.

 

Não é novidade para o movimento essas distinções. Buscamos desde o início de nossa existência disputar uma cultura política baseada na solidariedade, fraternidade e respeito entre os diferentes setores do movimento, que é reflexo de uma orientação política para as sínteses coletivas. Entendemos e disputamos a ideia de que o atual estado da reorganização da esquerda no Brasil, marcado pela fragmentação e isolamento de todos que não se renderam à conciliação de classes, tem influencias diretas na cultura política exercida por nós. O contexto reforça o cada um por si e suas derivações – sectarismo, autoproclamação, pouca capacidade de diálogo com militantes independentes e outros movimentos, indisposição para a síntese coletiva etc. É nesse sentido inclusive que defendemos que travar uma discussão entre nós sobre cultura política e práticas no movimento é também uma forma importante de pensar em como construir reais alternativas políticas, tarefa que se impõe na atual conjuntura do período.

 

Em todos estes anos construindo o movimento na USP, identificamos nas práticas do Juntos! diversos destes elementos negativos na relação com o conjunto do movimento e mesmo com seus aliados diretos, tendo repetidamente vários de nossos militantes, o nosso coletivo e o movimento de conjunto vivido diretamente os efeitos de atitudes baseadas em atropelo de posições e tendências sectárias e desrespeitosas mesmo com seus aliados. Com essas práticas, enfraquecemos nosso movimento e afastamos principalmente os sujeitos oprimidos, menos seguros, apropriados e construídos historicamente para ocupar a política. Por isso, buscamos na USP disputar uma outra cultura política internamente na gestão do DCE e também na relação com nossos aliados e o conjunto do movimento.

 

A autocrítica e autorreflexão sempre foram, para nós, parte essencial desse processo. Como exemplos disso podemos citar nossos balanços públicos das greves de 2013 e de 2016, e nossa tese construída para o Congresso dos Estudantes de 2015, nos qual expúnhamos uma concepção de que parte das fraquezas do movimento se explicava pelos seus próprios erros, notadamente de cultura política, inclusive no DCE. A relação da direção do DCE com o conjunto do movimento, posturas autoproclamatórias, e a secundarização de espaços políticos dos estudantes a partir do critério da autoconstrução são elementos que salientamos nestes momentos. Porém, para além desses posicionamentos públicos, nossa disputa cotidiana no movimento estudantil e na gestão foi marcada pela compreensão dessa necessidade: a reorganização da esquerda passa pela reinvenção de nossa cultura política exercida no dia-a-dia.

 

Construímos também uma orientação de práticas que privilegiassem diferentes formas de participação no movimento estudantil, inclusive aquelas que não renderiam saldos de construção ao nosso coletivo, mas que têm relevância em si mesmos, no sentido do fortalecimento da auto-organização estudantil e da pluralidade do movimento. Conseguimos, durante mais de metade da nossa existência, ser o principal coletivo impulsionador das Frentes Feminista e LGBT, e colaborar com os coletivos de combate às opressões nos cursos, com a auto-organização da negritude por cotas, com as frentes de extensão e outras formas de organização dos estudantes. Defendemos propostas que colocavam o DCE a serviço dessas outras formas de intervenção coletiva, muitas vezes desacompanhados do restante das gestões que compusemos.

 

AS TAREFAS DAQUI PRA FRENTE

 

Para o RUA – Juventude Anticapitalista é necessário o fortalecimento de um campo político anticapitalista, coerente e que recuse as conciliações com os de cima. Ao mesmo tempo, esse campo só pode dar conta de sua tarefa se se propuser à mais ampla unidade, entre os de baixo, para derrotar Temer e exigir eleições diretas e gerais já, e seguir barrando as reformas que querem nos impor. A gestão do DCE deve impulsionar essas lutas e se somar na construção de todas as iniciativas de frente única com essas pautas, com destaque para as impulsionadas pela Frente Povo Sem Medo. A unidade deve se dar em torno dessas tarefas e, ainda, para imediatamente impor cotas raciais e sociais na USP. É sob esse norte que atuamos e que seguiremos atuando.

Nossa nova opção tática na USP se dá justamente por acharmos que essa será a única forma de darmos conta dessas nossas tarefas. Achamos necessário seguir no fortalecimento da gestão do DCE, porque é só com uma política orientada para o fortalecimento das nossas lutas sem conciliação com os de cima que podemos vencê-los. Mas é também entendendo nossos próprios limites que isso será possível. Os setores petistas da universidade se fortalecem e, para nós, não representam uma alternativa, já que optam por manter a estratégia que nos levou a tomar um golpe em 2016 e, mesmo anteriormente, não ter avançado como deveria para nosso país. Na USP, esses setores crescem com um discurso de unidade, mas que não se reflete na construção cotidiana das entidades e do movimento, e sim em políticas de autoconstrução. Ao mesmo tempo, urge reconhecer que o crescimento desse setor é também reflexo de nossos erros de cultura política e, mais recentemente, da própria linha política de parte de nossos aliados.

Acreditamos que o fortalecimento de nosso campo em detrimento desse setor passa pelo aprofundamento da democracia, do respeito e da orientação para as sínteses e construções coletivas entre nós, principalmente na gestão do DCE, rumo a um programa que possa dar conta do enfrentamento necessário. Por fim, queremos voltar a contribuir com mais força para as ferramentas de auto-organização das mulheres, das LGBTs e da negritude na USP, além de outras formas de organização dos estudantes.

Queremos convidar todos os coletivos e militantes que querem construir um movimento estudantil combativo e democrático para que se juntem a nós nessa nova fase de disputa política na universidade. O fortalecimento do nosso campo passa, mais do que nunca, pelo fortalecimento de uma cultura política orientada pelas sínteses e pela construção coletiva e generosa entre nós, que tenha como resultado um programa fruto das diversas cabeças e mãos que o constroem. É possível e necessário cumprir essa tarefa!

 

 

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