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Disputar uma saída pela esquerda em defesa do nosso futuro

13.6.2017

  

Vivemos uma encruzilhada.

 

Temer é presidente, graças a um golpe institucional. Os motivos do golpe são evidentes: os donos do poder e do capital querem reordenar o Estado brasileiro para aumentar a exploração e retroceder ainda mais em direitos sociais, trabalhistas e previdenciários. As delações premiadas da Odebrecht só reforçam a falta de legitimidade deste governo. Temer é acusado de negociar o recebimento de 40 milhões de dólares junto com Eduardo Cunha e, para se manter e agradar os de cima, quer aprovar reformas que retiram direitos. Não aceitaremos: um governo que não foi eleito e está promovendo a maior retirada de direitos da história do país tem que cair.

 

A crise é grave e profunda, uma crise de dominação, que pode alterar o conjunto das relações sociais e a forma como as classes se relacionam no Brasil. Por isso, a juventude é parte importante da disputa de uma saída pela esquerda. Afinal, já sabemos as propostas das classes dominantes: contrarreformas ultraliberais, que objetivam atacar ainda mais a previdência e a aposentadoria, precarizar as condições de trabalho, a educação e a saúde públicas. Querem impor que a população trabalhadora mais pobre, a juventude, a negritude, as mulheres e LGBTs paguem a conta da crise, enquanto eles mantém seus negócios e lucros.

A crise se dá em várias dimensões, é política, econômica, ambiental e societária.

 

O sistema político montado na redemocratização, pautado na conciliação política de classes e em uma promiscuidade entre setores públicos e privados, se mostrou disfuncional para as classes dominantes. Afinal, uma burguesia como a nossa não consegue coexistir com tanta indefinição por muito tempo, já que o prolongamento da crise prejudica os negócios.

 

Enquanto isso, os impactos da crise são profundos. Cresce a violência institucional/estatal e extermínio da juventude negra, mas cresce também a violência para além do Estado. Crescem linchamentos, feminicídios, ataques de ódio às LGBTs, em particular às trans e travestis. Essas são facetas importantes da crise, pois atacam diretamente nossa existência, e não são novidade. Como já afirmava Simone de Beauvoir “basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida”. Os movimentos de combate às opressões tem ganhado força no Brasil, e seu fortalecimento é fundamental nesta conjuntura.

 

A solução para a crise que enfrentamos não pode se dar por saídas autoritárias. A superação da crise da “Nova República”, dirigida por tudo que representa o velho, tanto nas opções pela conciliação de classes quanto nas relações entre empresários e políticos, se dará com a radicalização da democracia, com a ampliação desta. É o povo que tem que decidir, pois os empresários, banqueiros e políticos corruptos da ordem já mostraram que não são capazes.

 

Os de cima se dividem sobre qual será a saída

 

É importante observar as divisões no andar de cima. Apesar da unidade pelas reformas, há diferenças sobre qual a melhor forma de resolver a sucessão presidencial e uma intensa disputa na forma do Estado lidar com os negócios daqui pra frente e quem vai ser mais beneficiado. É nossa tarefa incidir nas falhas e vacilações dos de cima, fortalecer os movimentos sociais e disputar a opinião da sociedade sobre os rumos políticos e econômicos do país. É como o poema de Maiakovski, revolucionário e poeta russo: “Não estamos alegres, / é certo, / mas também por que razão / haveríamos de ficar tristes? / O mar da história / é agitado. As ameaças / e as guerras / havemos de atravessá-las, / rompê-las ao meio, cortando-as / como uma quilha corta / as ondas.”

 

A operação lava-jato também evidencia essas diferenças. Um setor do aparato do Estado está promovendo uma limpeza para moralizar o ambiente dos negócios no Brasil. E fazem isso golpeando alguns setores empresariais, mas com apoio difuso, até agora, de outros setores burgueses. É, neste sentido, que defendem uma “modernização” do estado, em uma visão liberal clássica que busca colocar regras mais nítidas para o poder lidar com sua relação com o capital -- e isso em nada tem a ver com a democratização do poder.

 

Apesar de reconhecer que as delações da Lava Jato são mais um elemento que agudiza a crise política e desestabiliza os de cima, não podemos nos fazer coro aos que agitam esta operação, pois temos certeza de que a saída para a crise não passa também por uma intervenção do judiciário - cujo controle democrático é ainda menor que no legislativo e executivo - na política nacional. Sabemos que a justiça é racista e elitista, o que fica nítido, por exemplo, quando Carmem Lúcia, presidenta do STF, se reúne com empresários, banqueiros, diretor geral da globo para debater reformas políticas. A Lava jato ajudou a expor vísceras da relação entre empresariado e políticos no país, mas não é por ela que passa a solução dos nossos problemas.

 

Agora, a disputa mais importante se dá no terreno da sucessão presidencial. Uma fração dominante acredita que a queda do Temer tem um custo inferior à sua permanência para a velocidade de aplicação das reformas (a rede globo é expressão desta posição). Outros hesitam, pois temem que a cassação da chapa, um impeachment ou uma renúncia inviabilizem a aprovação das reformas.

 

A reação dos debaixo para oferecer resistência

 

Temer não tem popularidade, nem legitimidade para seguir governando. Nem o Congresso Nacional tem autoridade para eleger, pela segunda vez, um presidente. Enquanto eles se articulam para planejar eleições indiretas como forma rápida e eficaz para sair da paralisia, nós respondemos com a força das mobilizações populares que queremos Diretas Já para presidente e para o Congresso Nacional.

 

Não pode ter vacilo. É importante impedir a burguesia de governar, a essa altura. Isso em nada tem a ver com depositar ilusões na suposta democracia burguesa. Mas reconhecemos um desequilíbrio entre a profundidade da crise e a relativa fragilidade da ofensiva e da organização dos debaixo. É uma situação ainda defensiva, onde não se observam os batalhões da classe trabalhadora em campo, conselhos populares, embriões do poder popular. Não é uma situação revolucionária e precisamos desenvolver a experiência da(o)s trabalhadora(e)s e dos povos oprimidos na luta de massas.

 

Essa é a certeza que possuímos: é a mobilização da massa, com milhares e até milhões de pessoas nas ruas que nos ajuda a incidir sobre a crise dos de cima, diminuindo as possibilidades de aprovação das reformas. Tivemos em março, nos atos do 8, 15 e 31, um primeiro ensaio crescente da mobilização. A Greve Geral do dia 28/04 foi a principal demonstração de força da classe trabalhadora brasileira, dos movimentos populares, da juventude contra a ofensiva ultraliberal do capital e do governo golpista de Michel Temer.

 

Foi bastante positiva a convocação unitária da greve pelas centrais, com apoio popular e das frentes existentes no país. O ato em Brasília no dia 24/05, após da divulgação da delação que cita Temer, foi também fundamental para colocar ainda mais em xeque o governo golpista e antipopular.

 

Que saídas o RUA propõe?

 

Nossas tarefas se dão no terreno social e no terreno político. A primeira significa acumular o máximo de forças em unidade de ação para oferecer resistência por meio de mobilizações populares de massas. Por isso, a construção da Frente Povo Sem Medo é tão importante para nós. A segunda é construir um programa político junto ao restante da esquerda anticapitalista para superar a conciliação de classes e avançar em bandeiras políticas de transição que dialoguem com o sofrimento da classe trabalhadora, da juventude e dos povos oprimidos para colocá-los em movimento.

 

O próximo passo fundamental é a construção de uma nova greve geral, porque amplia a confiança da classe trabalhadora nas suas próprias forças. A juventude e os movimentos sociais são protagonistas importantes para a construção de uma greve geral que paralise os grandes centros urbanos e demonstre força!

 

Acreditamos que é importante travar um debate fundamental: se é um consenso derrubar o Temer, o que queremos colocar no lugar? É tempo de discutir projeto para o país e fazer balanço de onde erraram os últimos governos. A primeira lição é óbvia: não dá para cometer o mesmo erro de tentar conciliar interesses entre os de cima e os de baixo - estratégia adotada pelo campo do PT/PCdoB no governo. Quem mais ganhou com isso foram os setores golpistas. Por isso, devemos ser firmes: a conciliação não serve! Nossa economia é voltada para o lucro dos capitalistas. Não é verdade que falta recursos para investimentos em saúde, educação e moradia, por exemplo. A elevada taxa de juros que incide na dívida pública faz boa parte dos recursos do país irem para bancos privados. Enquanto isso, trabalhadores (as) pagam proporcionalmente à sua renda mais impostos do que os ricos Adotar o imposto progressivo, fazer reforma tributária, reduzir as tarifas e realizar auditoria cidadã da dívida pública são fundamentais para combater a desigualdade social brasileira.

 

Ainda, vemos que os políticos hoje são quase todos homens, brancos, heterossexuais, defensores das elites. O sistema político está apodrecido: é necessário construir mecanismos de participação direta e constante da população, acabar com o financiamento privado de campanha, alterar radicalmente as estruturas fechadas de representação política e fazer com que a livre consciência da população que vive do trabalho seja a base de nossa democracia – e não o poder econômico. Somos contra a democracia dos ricos e defendemos uma reforma política, que garanta mais participação!

 

Queremos debater a importância do movimento defender reformas estruturais: agrária, urbana, democratização dos meios de comunicação, educação e saúde públicas. É possível desenvolver o país e sair da crise sem destruir o meio ambiente e acabar com os direitos sociais. Só que esse projeto não pode ser alcançado junto com os interesses dos bancos, agronegócio e grandes corporações. Por isso, o PT errou tanto. Precisa ter lado nessa história: e o nosso lado é o do(a) trabalhador(a), dos oprimidos e da juventude!

 

Dedicaremos cada energia militante para que a queda do Temer venha de paralisações, travamentos, piquetes e grandes manifestações com ampla participação dos movimentos sociais!

 

Estes são os temas que pretendemos levar para o Congresso da UNE, para a Oposição de Esquerda da UNE, Frente Povo Sem Medo e demais frentes, entidades e movimentos em que atuamos.

 

Se a juventude é uma das mais atingidas pela crise, cabe também a ela ser protagonista na busca por uma rearticulação e reinvenção da esquerda, impulsionando uma ação política autônoma contra aqueles poderosos políticos e econômicos que comandam nosso país contra os interesses da população, e que mantiveram seus poderes inclusive durante os governos petistas, pautados pela conciliação de classes. Esses governos, tentando vestir de novo velhas saída, não são alternativas para os anticapitalistas, pois se inseriram na lógica da ordem, do jogo oligárquico de negócios e da corrupção de Estado. Fazemos um chamado à juventude, de buscar construir forças para construir um novo projeto de país, superando as estratégias de conciliação e apassivamento da esquerda.

 

Fora Temer e suas reformas!

Eleições diretas e gerais!

Por uma nova greve geral!

 

“Quando cheguei eles já sabiam de tudo

o mundo era deles

só me restava inventar um futuro”

Leminski

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