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Um balanço das eleições de delegada(o)s ao 55º Congresso da UNE

9.6.2017

 

 


 

    Nos dias 15 a 18 de junho, vai acontecer o 55º Congresso da UNE (Conune). Um processo político importante que mobiliza milhares de universitários em todo o país e abre o debate amplo sobre os rumos do movimento estudantil brasileiro e suas lutas.

    Se nos anos de governos do PT, a burocratização da UNE, nas mãos da UJS (PCdoB) transformou a entidade num instrumento de defesa das políticas governistas, com o golpe de 2016 e os ataques a direitos posteriores, um importante processo de lutas de resistências, marchas, piquetes, greves e ocupações estudantis empurrou a entidade a se relocalizar na conjuntura.

     Agora, numa conjuntura de grave crise social, econômica e política, não pode haver vacilo: a UNE deve levar a luta pelo #ForaTemer e suas reformas antipopulares até as últimas consequências. Nenhum acordo de cúpula, nenhuma concessão às eleições indiretas para a Presidência! Nada pode substituir a força do movimento social, com uma nova greve geral e ampla unidade dos de baixo.

Temos que aproveitar o Conune para convencer cada estudante a ser parte das mobilizações. E mais que isso, debater qual é o projeto para sair da crise e fazer o balanço dos erros dos  últimos governos – que tentaram conciliar interesses inconciliáveis.


 

Enfrentar os métodos burocráticos e despolitizadores

   

      Foi com o espírito de levar estes e outros debates aos estudantes de base que defendemos que as eleições de delegados se dessem num ambiente democrático e plural, em que a diversidade de posições fosse discutida livremente, sem fraudes de atas e entidades fantasmas. Por isso, consideramos muito nociva a prática, recorrente entre as correntes da direção majoritária e do “campo popular” da UNE, de fraude eleitoral: falsificação de documentos, sumiço de atas e urnas e passagem em sala somente para recolhimento de assinaturas de estudantes sem explicação do que significa o Congresso. Essas práticas devem ser fortemente repudiadas.

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

       A Oposição de Esquerda da UNE, um campo alternativo à direção majoritária da entidade, nasceu com a vocação de enfrentar a sua condução burocrática, defendendo um movimento estudantil combativo, democrático e comprometido com as lutas dos estudantes, sem negociar nossos direitos em troca de cargos ou “acordões”.

     A Oposição da UNE esteve nas jornadas de junho de 2013, construiu greves estudantis em 2012 e 2015, ocupou universidades contra a PEC 55, foi parte da primavera feminista que derrubou o Cunha, de marchas, piquetes, mobilizações amplas contra as reformas da Previdência, trabalhista e a redução da maioridade penal e da Greve Geral de 28 de Abril. E é essa experiência que devemos levar ao Conune: só a luta muda a vida.

     Na batalha por erguer uma direção alternativa para o movimento universitário, a Oposição de Esquerda da UNE deve ser exemplar no trabalho de base e na condução democrática do movimento e das eleições das quais participa. É nossa cultura buscar dar voz aos oprimidos (as), combater os métodos da “velha política”, a chantagem, o toma-lá-dá-cá, os acordos distanciados das bases, os critérios mesquinhos em detrimento da política. Política que a nosso ver devemos construir pela base e de forma transparente, repudiando acordões e negociatas.


 

As práticas do “Juntos”: um “vale tudo” pelo aumento de delegação

 

     Defender a Oposição de Esquerda (OE) da UNE é também defender sua coerência enquanto campo político, razão pela qual é necessário fazer um balanço franco e fraterno com aqueles que reproduzem práticas da velha política.

       Nestas eleições de delegações, presenciamos o exercício, por parte do Juntos! – uma corrente importante da oposição da UNE – de ultimatos, chantagens públicas frente às demais correntes do bloco e do esmagamento de minorias, para sobrevalorizar a sua delegação, à revelia do seu real trabalho de base em certas universidades e faculdades e em detrimento da aliança da esquerda para o fortalecimento da OE.

      A postura de denúncia do Juntos! nas redes sociais sobre a divisão da delegação entre as forças da OE na Universidade Federal Fluminense (UFF) foi o primeiro sinal de que priorizariam o método do ultimato ao invés do diálogo com aliados. Assim, os dirigentes desta corrente estudantil desconheceram a importante e recente batalha, encampada em unidade por toda a esquerda, que levou à vitória no Diretório Central dos Estudantes (DCE) daquela universidade. Evidente que tinham todo o direito de demandar ter um representante na delegação da UFF, independentemente de outras forças acreditarem que não têm peso para tal, mas, ao invés de conversar, optaram por expor na internet o conjunto da vanguarda da UFF.

     Estabeleceu-se, assim, uma dinâmica de dois pesos e duas medidas, em que o Juntos! avançou para suprimir e diminuir representantes de outras organizações da oposição em locais onde tem força, como na UFPA, Unifesp, UFU e UnB. Em contrapartida, nos locais onde tem presença pequena, fez exigências descabidas à base de ameaças, como na UFC, UFF, UFRJ, UFRRJ. Esta prática favorece divisões entre a esquerda nas bases e vai na contramão dos desafios políticos que a OE tem pela frente.

    Na UnB, também prevaleceu a tentativa de superdimensionar o real tamanho e invisibilizar e suprimir o esforço dos demais coletivos e militantes independentes. Não bastasse a tentativa de imposição de um suposto peso, militantes do Juntos! Foram pra cima de uma militante do RUA. Em meio a uma reunião da OE, militantes do Juntos! levantaram-se das cadeiras e foram em direção da militante enquanto gritavam. Foi necessária intervenção dos demais para que não evoluísse para uma briga física. Práticas de intimidação como essa são inadmissíveis, menos ainda entre coletivos que compõem um mesmo campo.

       Outro episódio emblemático dessa prática deliberada do Juntos! deu-se na USP, onde esmagou as minorias e, em especial, um aliado com quem divide a direção do DCE há seis anos, o RUA – Juventude anticapitalista. Os companheiros se recusaram a debater sobre a base de critérios propostos pela RUA e demais coletivos, baseados em participação nas urnas, movimentação de votos e inscritos na chapa, e sem apresentar uma alternativa de um mapa global aberto baseado em outros critérios. E mais: tentaram desmoralizar a militância do RUA na universidade. O argumento do Juntos! é que estavam fazendo uma retaliação ao RUA, devido ao resultado das eleições na UFRJ, UnB e UFC, onde o RUA construiu chapas de unidade da esquerda e as decisões foram tomadas com base em critérios e reuniões entre toda a chapa. Realmente, condução bem diferente da situação da USP, em todos os sentidos.

       Fazem parte do processo discordâncias sobre critérios e a participação de cada setor. Entretanto, é de qualidade (negativa) a atitude adotada pelo Juntos! da USP. Ali, essa corrente reconheceu que estavam fazendo um movimento deliberado para enorme sub-representação do RUA, mas afirmou que bancaria essa proposta como forma de retaliação. Fizeram isso ignorando a construção sólida do RUA na USP e se recusando a ouvir todo o restante da chapa, com mais de cinco coletivos e independentes, que defendia uma outra distribuição. Enquanto todos os demais setores tentavam conduzir o processo de forma politizada e democrática, preservando a relação que construímos ao longo do tempo na USP e em consonância com as práticas adotadas entre nós - de árduo esforço de politização, sínteses e condução democrática e generosa de nossas relações – o Juntos! optou por abandonar esse caminho e conduzir a divisão de forma artificial e burocrática.

       Não acreditamos que vale tudo por delegados (as) em qualquer Congresso. Para nós, chantagem e irredutibilidade, à revelia de seus demais aliados, para provocar distorção na relação de forças em universidades (poderia ser num local de trabalho) é uma prática intolerável. A política e o respeito a posições diferentes devem ser sempre os critérios-mestres na relação entre as organizações de esquerda, balizadores de uma política democrática, assim como são entre uma diretoria e as bases de um DCE ou de um sindicato.

      A unidade da Oposição é fundamental para a disputa dos rumos do movimento estudantil nacional e o RUA pretende contribuir para manter este campo forte, sem prejuízo de debate franco e fraterno entre as diferenças, no 55º Congresso da UNE e, além dele, na greve geral e nas lutas de resistência!

 

 

 

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