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A adesão da USP ao SISU só serviu para mantê-la branca e elitizada!

 

Com o intuito de 'favorecer' o ingresso de pessoas das camadas mais pobres, a USP, uma das universidades mais elitizadas do país, aderiu ao SISU (Sistema de Seleção Unificada), em seu último processo seletivo. Pouco funcional, 11 cursos não selecionaram estudantes, deixando 10,4% das vagas sem inscritos [1]. Como já havia sido avisado pelo movimento auto organizado de negras e negros, essa é apenas uma maneira de mascarar o racismo existente nas entranhas da universidade.


Mesmo adotando uma política que, em tese, favorece a entrada de pessoas menos favorecidas socialmente, a nota mínima para poder se inscrever teve um patamar extremamente elevado. Além disso, a entrada de negros não foi discutida pelos dirigentes da universidade, que ignoraram as reivindicações do movimento negro uspiano, fazendo com que esse processo continue deixando a universidade branca e elitizada, sendo hoje umas das poucas universidades (quiça a única pública), que não possui sistema de cotas raciais. 


Em 2012, Supremo Tribunal Federal decidiu por unanimidade a constitucionalidade das cotas raciais como sistema de ingresso nas universidades públicas do Brasil. E é importante ressaltar também que os movimentos sociais e, principalmente o movimento negro, já possuíam acúmulos sobre a política de ingresso na universidade.  Vele lembrar que no ano passado o Movimento Negro de São Paulo marchou até a cidade universitária no dia da falsa abolição (13 de maio), exigindo cotas raciais na universidade, uma pauta histórica.


A Frente Pró-Cotas Raciais do Estado de São Paulo elaborou o PL 530/04, que está em trâmite na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, onde as universidades públicas devem reservar  25% de suas vagas para candidatos autodeclarados negros e indígenas; 25% para candidatos oriundos da rede pública de ensino, sendo que deste percentual, 12,5% será reservado para estudantes cuja renda familiar per capta seja igual ou inferior a 1,5 salário-mínimo; e 5% para candidatos com deficiência, nos termos da legislação em vigor. 


Segundo o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), em 2010 havia 571 mil crianças, entre 7 a 14 anos fora da escola no Brasil. Dessas, 62%, negras. Outro dado mostra que um trabalhador negro ganha em média metade do que um trabalhador branco ganha; que o percentual de negros abaixo da linha de indigência é duas vezes e meia maior do que o percentual de branco (71% dos indigentes do país são negros) e que 70% dos pobres são negros [2]. Os dados estatísticos entre o nível de escolaridade e raça demonstram categoricamente a segregação social e racial existente na nossa sociedade racista. Os índices são ainda mais alarmantes entre as mulheres e LGBTs negras.


Em nota sobre a adesão da USP ao ENEM, o Núcleo de Consciência Negra da USP colocou muito sobre a autonomia para as escolas que aderiram escolher a modalidade de seleção entre: i) ampla Concorrência, colocando todos os candidatos em disputa entre si sem fazer o recorte de raça, renda e alunos de escolas públicas; ii) alunos de escolas públicas sem a obrigação de fazer o recorte de raça ou renda; ou iii) alunos de escola pública que independentemente da sua renda se autodeclaram pretos, pardos ou indígenas. “Se o país é composto por mais de 51% da população autodeclarada de negros e no que se refere ao Estado de São Paulo são 37%, a proposta da USP não atende a real necessidade de inclusão e permanência dessa população que historicamente foi escravizada e que até os dias atuais sofrem consequências de uma politica de genocídio implantada principalmente nas periferias.” [3] 


A intransigência do reitor Marco Antônio Zago deixou claro: a inclusão do SISU era para retirar os 10 piores da FUVEST e selecionar os 10 melhores do ENEM. 


Mesmo os negros e pobres que conseguirem realizar o sonho de entrar na USP, a realidade também não é favorável. Nos últimos anos diversos ataques da reitoria e do governo do estado de São Paulo aos direitos ligados a permanência dificultam a continuidade dos estudantes mais necessitados em seus cursos. Soma-se a isso também o racismo cotidiano praticado pela comunidade uspiana e a falta de representatividade negra dentro das salas de aula e nos espaços de alto escalão da universidade, reflexo da elitização e racismo histórico da USP e do Brasil.


A todas (os) as (os) negras (os) que conseguirem passar pela peneira social e racial que é o vestibular, força. E que essa força seja somada na luta por uma universidade realmente pública, gratuita e de qualidade para todos.

 

*Élice Botelho é estudante de Gestão Ambiental da USP, do DCE da USP e militante do RUA – Juventude Anticapitalista

 

 

Links
[1] http://g1.globo.com/educacao/noticia/2016/01/usp-termina-primeiro-sisu-sem-alunos-selecionados-em-11-cursos.html?utm_source=facebook&utm_medium=share-bar-desktop&utm_campaign=share-bar
[2] http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=121040
[3] http://www.ncn.org.br/index.php/ncn-na-luta/notas/120-posicionamento-do-ncn-a-adocao-do-enem-como-forma-de-ingresso-nos-cursos-de-graduacao

 

 

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