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Com muitas flores se faz a Primavera! - Balanço do RUA sobre a greve da USP de 2016

14.8.2016

 

(Primeiramente: Fora Temer! Que o povo decida!)

 

A USP acaba de passar por uma longa e importante greve de estudantes, funcionários e professores. Foram muitos dias, muitas atividades, atos, debates e fóruns -- com muito esforço coletivo, suor e cansaço. É natural, portanto, que passe por nossa mente: “a greve acabou, e agora?”. Consideramos importante colocar na balança, de maneira franca e aberta, nossos erros e acertos, e procurarmos saber em que pé estamos para que o movimento avance coletivamente. É nesse esforço de diálogo com o conjunto dos estudantes, ativistas e organizações que o RUA vem compartilhar suas visões sobre esse importante processo.

 

A cabeça pensa - e o corpo luta - onde os pés pisam...

 

A greve estudantil durou 84 dias, sendo encerrada no dia 03 de agosto. Assim, recentemente os estudantes da USP voltaram à dinâmica “normal” da universidade. Mas que normalidade é essa em que nos encontramos? A resposta a esta pergunta, na nossa opinião, é chave para começarmos a constituir um balanço comum sobre a greve ocorrida.

 

Marco Antônio Zago, professor da Medicina de Ribeirão Preto, foi eleito reitor -- de forma indireta e antidemocrática, conforme rege o estatuto da USP -- a partir de uma promessa de que sua gestão teria como norte fundamental o diálogo com a comunidade universitária. Após uma gestão do Grandino Rodas marcada pela truculência declarada, essa necessidade era latente para todos. Entretanto, viu-se exatamente o contrário. Mesmo em comparação com a gestão anterior, a atual reitoria aplicou um nível de autoritarismo inaceitável para qualquer universidade que se proponha a ser pública, desde seu início. Desde 2014, sob a justificativa de uma “crise orçamentária”, Zago vem aplicando um projeto de precarização da universidade, contra o qual houve uma grande greve em 2014 que reverteu a proposta do reitor de não reajustar o salário de trabalhadores e funcionários. Sem dialogar com a comunidade uspiana, o reitor vem realizando um desmonte na universidade com demissão de trabalhadores, precarização das condições de trabalho dos bandejões (com possível terceirização), precarização do HU, projeto de fechamento das creches, sucateamento dos museus, corte de bolsas de estudo e de permanência estudantil e proposta de novo regime de avaliação e de carreira docente.

 

Somou-se à essa situação da USP a conjuntura nacional de golpe institucional e entrada do governo ilegítimo de Michel Temer, com uma agenda de ataques de patamar nunca vivido por nossa geração -- mesmo com essa tendo visto já vários retrocessos durante os governos do PT. Esse novo governo nos afeta profundamente enquanto cidadãos pelo todo que ele representa, e, enquanto estudantes, pelos ataques à educação, cortes de verbas e um projeto de educação privatista e não emancipatória.

 

É nesse contexto, e contra ele, que se inicia a greve das três categorias em maio desse ano. A indignação geral frente a situação da USP e do Brasil era cada vez mais latente nos estudantes, e não era por menos. Assim, a greve estudantil se inicia em 12 de maio, somando-se à luta contra o desmonte da USP das demais categorias, e colocando enquanto seus eixos próprios de luta: Cotas Já; Contratação de professores e funcionários; Permanência Estudantil; Contra a desvinculação e o desmonte do HU; Contra a repressão; e contra os cortes na educação.

 

A luta pela universidade pública e democrática em outro patamar

 

Na nossa opinião, um primeiro balanço positivo importante da greve estudantil a ser ressaltado é a escolha e a construção desses eixos políticos citados e o consequente enraizamento deles ao longo da greve. Mais de 80% dos cursos da universidade – incluindo todos da capital e dos interiores – entraram em greve ou fizeram paralisações que incorporaram pelo menos a maioria desses eixos, com destaque para cotas, contratação e permanência. A pauta do HU também teve um avanço impressionante no conjunto dos cursos ligados à área da saúde, e significativo no resto do movimento. As pautas tiveram um enorme aumento de enraizamento, e que a greve teve participação ampla e de cursos muito diversos - da POLI à ECA, de Piracicaba à EACH, da Medicina à FFLCH. Além disso, conseguimos realizar atos com importante participação estudantil por cotas raciais, manifestações unificadas da luta pela educação estadual, atos-debates sobre a USP e sobre a conjuntura, além de um histórico Festival por Cotas organizado pelo Por Que a USP Não Tem Cotas, com apoio do Núcleo de Consciência Negra e DCE.

 

Não entendemos este como um balanço menor: a chama de indignação que se acendeu em vários novos ativistas e o avanço na organização coletiva a partir da experiência política dos estudantes de construção da greve. Isso não é, de nenhuma forma, a defesa da “greve pela greve”. A greve é um dos (muitos!) métodos de mobilização do Movimento Estudantil (ME) que, tal como os outros, tem pontos positivos e negativos, e deve ser usada para determinadas funções em determinados momentos -- como parte de um processo para arrancar vitórias globais de transformação da universidade e da sociedade em suas diversas esferas. É justamente por isso que entendemos que esses avanços devem ser valorizados, porque -- tanto do ponto de vista do enraizamento quanto das conquistas parciais -- colocam o ME em outro patamar para a luta contra o desmonte da universidade e pela conquista das pautas tão necessária que colocamos.

 

Se, por um lado, houve significativo enraizamento do movimento, por outro, as mobilizações locais não são suficientes para barrar o projeto de desmonte como um todo. Assim, ao ter cumprido sua tarefa de enraizamento, o ME voltou suas forças para conseguir de uma negociação formal e global com a reitoria. As tentativas mais diversas foram feitas, de pedidos oficiais protocolados a atos em frente à reitoria, e foram seguidamente negadas, ou, pior, ignoradas, pelo reitor. A sua intransigência e indisposição para diálogo se mostrou tamanha que o reitor não se dispôs nem mesmo a uma reunião com o movimento para dizer que não atenderia nossas demandas. É, sem dúvida, um balanço negativo que não tenhamos conseguido arrancar essa negociação. Nós acreditamos que, para avançarmos, precisamos saber que o principal responsável por isso é essa nova política da reitoria da USP, de imposição unilateral de ajustes e postura conivente em relação à crise de financiamento da universidade -- facilitada pelo contexto nacional de crise e intransigência de um governo ilegítimo -- e, dentro desses marcos, pensar como avançamos no ME para superar essa limitação.

 

Apesar de não ter havido uma negociação, achamos necessário destacar que a maioria de nossas pautas teve um avanço importante também do ponto de vista institucional da universidade. No tema do acesso à universidade, a pressão crescente do movimento negro e mobilização unificada dos estudantes - pressionando tanto a reitoria pela implementação de cotas na Fuvest quanto as unidades por vagas com critério étnico-racial no Sisu - permitiram que esta pauta ganhasse a necessária centralidade e houvesse algum avanço pela via das unidades, ainda que de forma limitada a parte das unidades. Apesar disso, a Reitoria manteve sua intransigência, elitismo e racismo com relação à urgente política de inclusão por cotas via Fuvest, prometendo no Conselho Universitário uma reunião específica para o tema de inclusão ainda no segundo semestre.  Nas pautas de luta contra o desmonte, o recuo do reitor em relação à desvinculação do HU, frente à pressão do movimento e à recusa da Secretaria Estadual de Saúde de administrar o hospital, foi importantíssimo para nossa disputa de projeto de universidade, apesar de não ter sido solucionado o grave problema de precarização do Hospital. Além disso, em reunião exclusiva com os diretores de unidade, foi anunciada a abertura de contratação de docentes em 2017 e está sendo negociada a distribuição de docentes entre as unidades, o que continuará demandando pressão do movimento para garantir a quantidade de docentes necessária sem prejuízo das atividades de ensino, pesquisa e extensão.

 

O fato de essas conquistas parciais terem sido arrancadas -- e foram arrancadas, é preciso ter claro, porque a reitoria não teria recuado em parte de seu projeto de desmonte se não fosse pela pressão dos movimentos sociais da universidade -- sem uma reunião com o reitor e sem que esse admitisse que foram concessões por conta da greve, na nossa opinião, reforça o quão autoritário e incapaz de qualquer tipo de diálogo é o reitor Zago. Por outro lado, o reitor utilizou disso e aprovou novas medidas de ajuste - um novo plano de demissão voluntária, o fim da autonomia estudantil na eleição de representantes discentes e um plano de redução de jornada - em uma reunião do Conselho Universitário convocada no meio de julho e três dias antes de sua realização, e, ainda, depois de ter desmarcado a anterior marcada com grande antecedência.

 

Assim, acreditamos que, se é verdade que é greve não conquistou as vitórias tal como nos propusemos, e encontrou limites relevantes, é verdade também ela serviu significativamente para que estejamos hoje muito mais próximos delas. A intensificação do projeto de desmonte da USP e destruição de seu caráter público a partir de medidas unilaterais e autoritárias fica cada vez mais evidente e fortalecida pela conjuntura nacional e estadual. Nós, entretanto, estamos hoje muito mais preparados para conseguir nos contrapor a ele e arrancar conquistas rumo ao nosso projeto de educação pública, emancipatória e democrática em sua gestão, acesso e condições de estudo e trabalho. É preciso que a chama de revolta não se perca e seja canalizada de forma unificada em torno dessas lutas.

 

Repensar nossas práticas, construir uma outra cultura política e reorganizar a esquerda anticapitalista

 

Além disso, para nós, uma das principais lições que precisam ser tiradas dessa greve (e de antes dela) é que o ME precisa saber se reinventar, para dar conta tanto da nova conjuntura nacional e da USP quanto das demandas sempre em transformação dos estudantes e da sociedade. Essa tarefa é parte de uma necessidade global e internacional de reorganização e reinvenção da esquerda anticapitalista. Ou seja, da reconstrução de um amplo bloco histórico com um novo programa, novas ferramentas de organização, novas táticas, estéticas e cultura política para combater a hegemonia do neoliberalismo pós derrota das experiências socialistas do século XX. Isso não significa abrir mão dos imensos acúmulos já construídos, mas justamente utilizá-los e atualizá-los a luz de um novo capitalismo, de novas necessidades, dos erros feitos e dos aprendizados tirados.

 

O que isso tem a ver com a greve da USP? Diversas vezes em nossos espaços do movimento estudantil percebemos o peso do momento de reconstrução e reorganização da esquerda que vivemos. Esse momento, na nossa opinião, é marcado pelo peso das derrotas sofridas, e da reação de uma esquerda atônita, com legítimo medo de ser engolida, mas que transforma isso na reprodução de velhas práticas de fazer política, que visam somente a auto-preservação e auto-construção, sem o propósito de ousar pensar e construir o novo anticapitalismo necessário para hoje. A incapacidade de construir sínteses políticas, a tendência a reafirmar posições demagógicas sem debate real entre os ativistas, a repetição de métodos sectários e auto-proclamatórios, o dogmatismo e o burocratismo, tal como o individualismo, percebidos no nosso cotidiano, são, na nossa opinião, reflexo desse momento. E a reprodução dessas práticas e valores são, na nossa opinião, grandes entraves para o ME da USP e o conjunto da esquerda: eles somente fazem nossos espaços serem mais esvaziados, mais hostis, e menos capazes de agregar diversos estudantes para construir sínteses novas sobre o momento político, nossas tarefas gerais, nossas táticas e nossas práticas.

 

Assim, a reorganização da esquerda anticapitalista, e portanto do ME da USP, passa por uma reinvenção dessa cultura política, ou seja, de nosso modo de fazer política, pautando-se principalmente nos princípios da auto-organização coletiva e da democracia participativa. Essa nova cultura política, anticapitalista, passa também por uma compreensão de que a tarefa da reorganização e reinvenção exige valores e práticas de solidariedade de classe, fraternidade nos debates entre as organizações e ativistas, busca de diálogos e sínteses entre os diferentes, combate a qualquer forma de opressão e de autoritarismo no ativismo e fora dele, humildade para autocríticas e aprendizados, e firmeza em relação a princípios e valores básicos para nossa emancipação coletiva. Assim, a lógica do “cada um por si”, característica do capitalismo, que contaminou a esquerda e o ME, precisa ser substituída por uma lógica de reorganização coletiva.

 

E agora? Alguns apontamentos e perspectivas

 

Com esse texto, buscamos apresentar humildemente alguns dos elementos que consideramos centrais no balanço dessa greve de 2016, na situação do Movimento Estudantil e de nossas perspectivas daqui pra frente. Na nossa opinião, é tarefa do ME abranger a nova camada de ativistas que se mobilizaram nessa greve, unificando a luta pelos eixos que, como demonstramos, acreditamos estarem mais próximos de vitórias definitivas, ao mesmo tempo que atentos aos ataques que ainda devem vir. Para isso, precisamos entender que todos os ataques fazem parte de um mesmo projeto de desmonte da universidade pública, promovido pela reitoria, governos, mídias e os poderosos que comandam o país. Para responder à altura desses desafios, acreditamos ser necessário avançarmos em nossas formulações e lutas coletivas no DCE, Centros Acadêmicos, Frentes e Coletivos de Combate às Opressões, Extensão, e todas as formas de organização estudantil, compreendendo-as como parte da luta por um mesmo projeto de universidade pública, democrática, emancipatória e socialmente referenciada. Ressaltamos que, para isso, faz-se urgente o debate e a construção de uma outra cultura política no Movimento Estudantil, que se diferencie das velhas formas de fazer política, nos marcos da necessidade -- urgente e estratégica! -- de reorganização e reinvenção da esquerda anticapitalista. Com muitas flores -- com diferentes ativistas, organizações, processos de luta, greves, reflexões e sínteses -- se faz a Primavera!

 

 

 

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