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CHAMADA ÀS LUTAS!

 

     É necessário fazer comparações históricas para compreender a conjuntura. Mas não de qualquer forma. É preciso contextualizar e aprofundar essas comparações, considerar os aspectos particulares da dinâmica da luta de classes em cada momento histórico, sob o risco de produzir discursos perigosistas, desonestos e manipuladores. É o que os setores que apoiam o governo Dilma/PT têm feito: uma comparação incompleta e irresponsável entre a conjuntura atual e a das vésperas do golpe de estado de 1964, como se a história estivesse prestes a se repetir. Eles têm mobilizado toda a carga simbólica dolorosa que a ideia de golpe traz consigo para mexer com o imaginário social, disseminar um sentimento de medo e, com isso, convencer muita gente a ir às ruas em manifestações “contra o golpe e em defesa da democracia” que, na prática, têm servido exclusivamente para defender o governo e promover a imagem de Lula.

 

     É preciso recorrer à história para perceber que, apesar de alguns elementos semelhantes, o que está em curso no Brasil não é um golpe civil-militar, como ouvi de certo historiador em um debate na semana passada. O golpe que está em curso é um golpe governamental. Caso esse processo de impeachment (sem qualquer base jurídica) tenha como desfecho a derrubada do governo Dilma/PT, acontecerá uma ruptura apenas a nível do governo. E isso não abalará as instituições do Estado burguês. Essa reflexão obviamente não nega que o golpe em curso de fato significará um retrocesso sem tamanho. Porque (muito além da questão jurídica) ele representa uma saída à direita para a crise e está sendo orquestrado por setores da burguesia que, com o auxílio de instrumentos que historicamente estão a seu serviço - a grande mídia e o (ontologicamente seletivo) sistema judiciário -, querem julgar e executar o governo para aplicar ajustes ainda mais duros e retirar ainda mais direitos da classe trabalhadora e da juventude. Por isso, temos que se contra esse impeachment.

 

     Por outro lado, se o contexto fosse outro, se a população em geral, trabalhadores, juventude e setores da esquerda estivessem organizados e unificados em uma saída pra crise, seríamos sem dúvidas a favor do impeachment. Se quem elege é o povo, quem mais tem poder de tirar? Nesse caso, talvez as eleições gerais, em um momento posterior, - diante dos ataques ainda mais severos à classe que invariavelmente estão por vir - se apresente como a saída mais democrática dentro das possibilidades que temos. Além das greves, das mobilizações, das lutas e resistências que travamos todo dia.

 

     Não estamos em condições de defender a democracia e o estado democrático de direito em abstrato. Precisamos deixar muitíssimo claro que vivemos em uma pseudodemocracia, burguesa e sequestrada, apoiada em um estado “democrático” de direito que não passa de uma idealização jurídica e que, na prática, atua necessariamente de forma seletiva e serve necessariamente para legitimar violações sistemáticas a direitos dos de baixo, dos sub-cidadãos. E isso não exclui a constatação de que em outros momentos históricos o Estado burguês era ainda mais nefasto na margem de cá, na periferia do capitalismo central, e que foi através de muita luta e muito sangue que se conseguiu arrancar o mínimo sistema de garantias que temos. Sim. Já foi pior. E pode sempre piorar. Mas como está não está nada bom. Se faz necessário (em nosso favor) defender esse mínimo, dizer o óbvio. E ir além.

 

     Então, o problema não é defender a democracia propriamente. Mas o resultado de pautar nisso uma agitação e atuação nesse momento tão difícil e instável e por isso mesmo de muita revolta e indignação generalizada. Existem consequências práticas da defesa da democracia nessa conjuntura e a mais perigosa delas é deixar de construir uma saída verdadeiramente à esquerda, uma alternativa real para os trabalhadores e para a juventude. É perigoso, diante dessa falsa polarização entre dois setores que, apesar de origens distintas e de diferenças pontuais, constituem uma mesma velha política, suja e mentirosa, que vai aplicar o mesmo projeto neoliberal para o país. É perigoso, ao (bem intencionadamente) mobilizar os discursos de defesa do estado democrático de direito, se confundir na prática, nas ruas com os que não propõem nada além da manutenção do governo Dilma/PT. É perigoso perder o bonde da história.

 

     Vivemos a maior crise política da história da Nova República. São tempos difíceis, de muitas incertezas e nenhuma análise acabada ou solução perfeita para essa conjuntura caótica. É preciso de muita cautela, muito estudo, muita paciência histórica, firmeza de princípios e coragem para acirrar as lutas e para empenhar nossos esforços na construção de sínteses e de saídas verdadeiramente à esquerda de, com e para as trabalhadoras, trabalhadores, a juventude e as minorias, que, apesar de maiorias, são historicamente exploradas e oprimidas pelo sistema capitalista.

 

     Por isso, convocamos todas as lutadoras e lutadores a participarem da plenária - que vai acontecer hoje (04/04), às 19 horas, no RESUN da UFS - para a construção de uma chapa feminista, classista, anticapitalista e de esquerda para disputar as eleições do DCE UFS. E, também, para a plenária do Bloco de Lutas, que vai acontecer quarta-feira, 06/04, às 19h, no SINDIPRETRO.

 

     A vida só muda se, juntas, juntos e juntes, a gente lutar!

 

 

*Amanda Nunes é militante feminista do RUA e estudante do curso de Direito da Universidade Federal de Sergipe.

 

 

 

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