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CRISE POLÍTICA: INSTABILIDADE ENTRE OS DE CIMA E OS DESAFIOS DA JUVENTUDE ANTICAPITALISTA

18.3.2016

Nota do RUA - Juventude Anticapitalista sobre a conjuntura nacional

 

A Crise Política: instabilidade entre os de cima

 

 

 

A cada dia aumenta a instabilidade política no país. Só nas últimas 24h, vimos o poço de lama da política dos de cima ir mais fundo com o “vazamento” dos grampos entre Lula e Dilma e com a posse, imediatamente suspensa, de Lula como ministro. Paira no ar, em todos os setores e classes, um clima de dúvida ou incerteza sobre o que acontecerá com o governo nos próximos dias.

 

Os atos do dia 13 de março reconferiram legitimidade social à linha do impeachment.  Foram manifestações convocadas pela oposição de direita ao governo e que foram, sem dúvida, muito massivas. Apesar de não ter controle sobre essas mobilizações, é a oposição de direita quem capitaliza as insatisfações contra o petismo. E são as ideias reacionárias e conservadoras que ganham espaço na sociedade. Hoje é impossível dizer que a linha do impeachment não tenha se enraizado mais na sociedade -- mesmo que seu tamanho não tenha expressado, na composição e origem social de quem esteve nas ruas, os setores explorados e oprimidos, pelo menos em sua ampla maioria.

 

O que fica cada vez mais nítido é que os últimos acontecimentos sinalizam que boa parte da burguesia está em uma ofensiva feroz em relação ao governo. A cobertura da Rede Globo, a fachada do prédio da FIESP (onde, simultânea à divulgação do grampo por Moro, passou a figurar o eixo “renuncia já”), o lobby no mercado financeiro com variações aparentemente inexplicáveis a cada movimentação do governo, a organização das entidades patronais… tudo indica que setores significativos do empresariado estão decididos a derrubar o governo Dilma.

 

É importante considerar que isso, apesar de impactar de maneira assustadora a consciência de setores expressivos da sociedade e da esquerda, até aqui não há elementos suficientes para dizermos que há um “golpe” em curso no país -- não vemos um golpe da burguesia contra a classe trabalhadora, ou pelo menos no que tradicionalmente se entende por isso. Poderíamos considerar um golpe se o impeachment viesse como uma resposta da burguesia a um governo que contrariasse seus interesses capitalistas, o que não aconteceu ao longo desses 13 anos de governos petistas. Poderíamos considerar um golpe se o impeachment fosse acompanhado de retrocessos do ponto de vista institucional ou constitucional, ou da supressão da ordem democrática no país -- o que, apesar de ser defendido por alguns setores exacerbadamente reacionários, não representa a linha geral da burguesia, que tem pressa para reestabelecer a estabilidade política em nome do bom andamento de seus negócios e lucros.

 

É verdade que a ofensiva do empresariado sobre o governo federal tem se valido de todo tipo de oportunismo e seletividade jurídica, além de, em alguns momentos, de manobras e rupturas com a legalidade das investigações. Isso, no entanto, não deve significar uma iniciativa de golpe de Estado: sabemos há muito tempo que a “ordem” e a “normalidade” da justiça institucional é sempre seletiva, uma vez que está a serviço fundamentalmente dos interesses dessa mesma burguesia. É ela quem define as regras do jogo e, quando é necessário, rompe com suas próprias regras, porque é só ela que pode fazer isso. O assassinato cotidiano do povo negro é testemunha constante dessa suposta ordem jurídica e da seletividade do Estado na aplicação de suas leis. As manobras institucionais fazem parte do arsenal da burguesia para sequestrar cotidianamente a democracia.

 

De outro lado, o modelo petista agoniza desastradamente. Parece ter dificuldade em entender por que motivo, depois de tantos anos sem contrariar uma vez sequer os interesses da burguesia, agora é abandonado por ela e jogado aos leões. Parece ter esquecido, depois de tantos anos ocupando a institucionalidade e obedecendo aos interesses do empresariado, que a moral capitalista é assim mesmo: o fundamental é o lucro e, se for necessário, a “faca nas costas” é parte do negócio.

 

Como demonstrou Junho de 2013, o petismo perdeu parte significativa do controle que exerce sobre os movimentos sociais. Por isso, com o avançar da crise econômica e um reaquecimento das mobilizações, o pacto do governo Dilma com a direita tradicional pela governabilidade se fragilizou. Quando o governo foi incapaz de proteger o lucro dos poderosos frente às mobilizações, o projeto petista se torna facilmente descartável para uma parcela significativa das elites.

 

Está assim instalada uma acirrada instabilidade política no país. De um lado, setores da burguesia que mobilizam suas forças para derrubar o governo e assim aplicar um ajuste mais duro e mais rápido, ao estilo do que vem fazendo o presidente argentino, Mauricio Macri. De outro, o governo petista, acuado, tenta mobilizar os setores minimamente progressistas da sociedade contra uma ideia relativamente confusa de “golpe” -- e exerce uma pressão enorme sobre a esquerda anticapitalista ao mobilizar esse imaginário traumático da história do país, mesmo que não estejam colocados elementos suficientes para estabelecermos essa analogia. Ao mesmo tempo, se apressa para tentar refazer seus contratos com a burguesia.

 

Mas, de maneira combinada, tanto oposição de direita quanto o PT tem a mesma agenda econômica: aplicar um duro ajuste sobre o conjunto de explorados e oprimidos, destruindo as condições de vida da classe e o futuro da juventude. A disputa, do lado de lá, é entre setores internos da burguesia e só deverá acabar, a curto prazo, com uma repactuação entre esses setores. De qualquer ponto de vista, não defendemos qualquer pacto entre a burguesia para retirar ainda mais direitos. Independente de quem vença essa disputa, o impacto econômico sobre nós deverá ser o mesmo.

 

Por isso, do nosso lado reafirmamos: não estamos nem com a oposição de direita, nem com o PT. Não defenderemos, nem participaremos de nenhuma mobilização em defesa de qualquer governo de ajustes, seja da direita tradicional, seja da burocracia traidora. Estamos na RUA e lutaremos até o final pela única saída verdadeira para a crise, em que os ricos paguem a conta -- uma saída pela esquerda.

 

As tarefas da juventude e da esquerda anticapitalista

 

Para construirmos essa saída, é necessário entender o que está em disputa na sociedade, para além das movimentações sujas entre os ricos e poderosos. Nesse sentido, dois dados publicados após as manifestações do dia 13 são importantes. Cerca de 25% dos manifestantes tem renda familiar de 2 a 5 salários mínimos -- o que não é a renda familiar da classe média. Ou seja: mesmo que as manifestações tenham sido compostas em sua ampla maioria por setores médios, houve também uma não desprezível adesão de setores da classe trabalhadora. Nas ruas, nos ônibus, nos locais de trabalho e estudo, é notável uma crescente indignação com o governo petista. E essa é uma indignação justa: sabemos sobre quem estão caindo os ajustes. O problema passa a existir quando essa indignação é capitalizada pelos setores mais reacionários da sociedade.

 

Ao mesmo tempo, apenas 9% dos manifestantes do dia 13 tinham até 25 anos. Isso significa que a juventude não aderiu ao chamado da direita tradicional, ao mesmo tempo em que segue, desde Junho de 2013, ocupando as ruas e se mobilizando na defesa de nossos direitos. Nossa geração não tem, em sua maioria, nenhum tipo de vínculo com o governismo: crescemos sob esses governos que não avançaram significativamente em nossos direitos e que nos reprimiram, oprimiram e atacaram sistematicamente.

 

Temos construido experiências políticas radicalizadas e independentes -- e, em muitos casos, vitoriosas, como as recentes ocupações das escolas de SP contra a reorganização escolar de Alckmin. Enquanto isso, a falsa conciliação de interesses promovida pelo petismo chega ao seu esgotamento. Por isso, por não termos rabo preso com a burguesia e por estarmos em constante movimento e aprendizado político, acreditamos que está nas mãos da juventude a construção de uma saída à esquerda para a crise.

 

Essa é a principal tarefa da esquerda anticapitalista hoje, e nossa como organização: reconstruir, através das lutas, ferramentas capazes de formar um bloco alternativo à falsa polarização a que assistimos na sociedade, que defenda interesses e direitos do conjunto de explorados e oprimidos pelo capitalismo.

 

Sabemos que não é uma tarefa simples nem rápida. Mas sabemos, por experiência própria, que só a mobilização independente de governos e da burguesia é capaz de conquistar vitórias. Não jogaremos bóia para salvar os projetos falidos da esquerda que se vendeu: não iremos afundar junto com eles, e não apoiaremos saídas ilusórias como o impeachment promovido pela oposição de direita.

 

Lutaremos com todas nossas forças contra qualquer retrocesso nos direitos democráticos, individuais e coletivos, que sequer são garantidos hoje em sua plenitude. Compreendemos que a desfarorável correlação de forças deve nos deixar alertas para defender o direito de organização e manifestação, por exemplo, que são ameaçados tanto por setores da extrema direita -- que vem numa escalada de agressões e violência inaceitáveis -- quanto pelo próprio governo petista, que acaba de sancionar a Lei Antiterrorismo. Defenderemos a radicalização e aprofundamento da democracia em todas as esferas da sociedade, pela participação e controle da política e da economia pelos de baixo, e não pelo lucro.

 

Para sermos vitoriosos, é preciso disputar a consciência da juventude e da classe trabalhadora. Caso contrário, quem o fará será a direita tradicional -- e sabemos que estamos em desvantagem, mas temos a certeza de que não arredaremos o pé. No atual cenário difícil, a esperança para forjar nas lutas a unidade de explorados e oprimidos contra as políticas capitalistas está nas mãos da juventude!

 

É por tudo isso, para estarmos à altura dos desafios que a História colocou diante da juventude, que estamos organizando nosso II Acampamento Nacional do RUA. Quem quiser embarcar nessa tarefa difícil, mas tão bonita, a tarefa de segurar o futuro nas mãos, está mais do que convocado a se somar conosco! É tempo de organizar as lutas em defesa do nosso futuro!

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