Todo o conteúdo deste site está publicado sob a Licença Creative Commons by-sa 3.0. Rua_Juventude Anticapitalista, exceto quando proveniente de outras fontes ou onde especificado o contrário. 

O XII Congresso de Estudantes da USP fortalece a luta contra os ataques aos nossos direitos dentro e fora da universidade!

13.10.2015

No último final de semana, entre os dias 1 a 4 de outubro, ocorreu o XII Congresso dos Estudantes da USP, espaço para o qual mais de 350 delegados foram eleitos em todos os campi da universidade. Nós, do movimento RUA - Juventude Anticapitalista, avaliamos  que este congresso foi um processo importante para armar os e as estudantes para os desafios que a conjuntura vem trazendo para nós, com retiradas de direitos dentro e fora da universidade.

 

Mais do que 4 dias de debates, o XII Congresso de Estudantes da USP começou meses atrás, na construção coletiva da programação do congresso, em debates pré-congressuais, na produção das teses e nas eleições de tiragens de delegados nos cursos e unidades. Além disso, foi muito importante o esforço que diversos coletivos e estudantes tiveram para trazer o movimento feminista, da negritude, LGBT, da extensão popular, em defesa da saúde pública e antiproibicionista mais próximos do movimento estudantil tradicional, com debates pré-congressuais e contribuições políticas ao congresso. Acreditamos que isso fortalece e muito a nossa atuação no próximo período, unificando todos e todas que lutam por uma universidade realmente pública em um projeto de universidade e de movimento estudantil que abarque toda a nossa diversidade, sabendo que a construção de uma educação libertadora passa pela disputa destas diferentes pautas!

Foi apenas a partir do envolvimento dos estudantes, na construção e nos debates que foram levantados pelo XII Congresso, que foi possível que saíssemos, hoje, com o sentimento de que voltaremos aos cursos com muitos desafios a conquistar. Desse ponto de vista, para nós o XII Congresso deve se confirmar como um grande sucesso. O movimento estudantil atualizou suas tarefas e se tornou mais plural, possibilitando que cada vez mais estudantes se encantem e se envolvam na batalha cotidiana por outra universidade, outra educação e outra sociedade.

 

Avaliamos que este processo como um todo marca a forte presença que nosso coletivo tem hoje na universidade, contribuindo com toda a construção do congresso e angariando mais de 90 assinaturas para a nossa tese, a 2a maior do congresso (com excessão da tese unitária LGBT). Além disso, mostrou nosso compromisso de envolver os diferentes locais de atuação dos e das estudantes para a transformação da universidade, já que estivemos à frente, junto de nossos aliados, na defesa de todas as contribuições de frentes estudantis unitárias defendidas na plenária.

 

A necessidade da unidade para barrar o ajuste fiscal dos governos e os ataques da reitoria

 

Essa pluralidade e esses desafios se expressaram bem concretamente nos debates e na plenária final do congresso, culminando em uma formulação que, para nós, é muito importante: a construção de uma ampla unidade para nos defendermos dos ataques da reitoria e dos governos e para avançarmos na conquista de direitos. Isto se refletiu no primeiro dia de plenária, onde mais de 80% dos delegados votaram em uma resolução política  de conjuntura defendida por nós, pelo Juntos, Pra Além dos Muros, Juventude às Ruas, UJC, Vamos à luta, Rizoma, Território Livre e Esquerda Marxista, que reafirma que a tarefa do movimento estudantil no próximo período é se aliar com os movimentos populares e sindicais na construção de uma alternativa de esquerda para a sociedade, que não aceite passivamente os ataques e o ajuste fiscal de Dilma e Alckmin, mas que também não fuja do papel de combater o que há de mais conservador na política brasileira. Reforçamos a nossa visão que somente com trabalho de base, unidade e independência política construiremos esta alternativa.

 

No 2o dia de plenária esta visão da necessidade de construirmos unitariamente uma saída para os dilemas da conjuntura novamente prevaleceu. Conseguimos, conjuntamente com o Juntos, Pra Além dos Mutos e Levante Popular da Juventude, unificar um eixo central para o movimento estudantil uspiano atuar dentro da universidade no próximo período, se colocando contra os ataques de Zago e Alckmin e ao mesmo tempo lutando para acabar com o elitismo da nossa instituição, colocando como centro da disputa do caráter da USP a luta por cotas raciais, permanência estudantil e uma segurança voltada para as mulheres, LGBTs e negritude. O fortalecimento da luta para mantermos a USP enquanto uma instituição pública e, ao mesmo tempo, a busca por uma transformação de seu caráter elitista é central para que possamos ter uma universidade que seja realmente pública, que reflita a cara da nossa população e que produza um conhecimento socialmente referenciado e libertador.

 

No momento da tarde da plenária, em que debatemos e deliberamos sobre o Movimento Estudantil, tivemos algumas divergências com aliados prioritários para nós - essencialmente os camaradas do Juntos e do Pr’Alem dos Muros -, mas, novamente, atuamos tendo em vista a tarefa comum para essa conjuntura e a necessidade de atuar unitariamente diante dela. Enquanto um coletivo que se coloca a tarefa de construir sínteses e unidades forjadas na luta cotidiana, vemos as divergências como parte normal e saudável da política e das decisões táticas a serem tomadas. Para nós, divergências táticas não devem inviabilizar a boa relação e a unidade entre aliados estratégicos. Por isso, apresentamos nossas posições com tranquilidade e honestidade, defendendo-as políticamente, sem julgamentos morais, calúnias ou difamações. Entendemos, inclusive, enquanto um vício a ser necessariamente superado pela esquerda - sob pena de repetir erros trágicos do passado - a incapacidade de aceitar e lidar com divergência entre nós.

 

Em primeiro lugar, foi votada a desfiliação do DCE Livre da USP da UNE e a forma de organização da nossa entidade. Sobre a filiação da UNE, mais uma vez, por maioria qualificada dos e das estudantes presentes na plenária final, o ME da USP reafirmou seu compromisso de lutar ao lado dos estudantes das universidades privadas e públicas para retomarmos para nós a nossa entidade nacional. Reafirmamos a nossa permanência nos fóruns da UNE e, ao mesmo tempo, nos colocamos criticamente à atual direção majoritária da entidade, reafirmando o programa da Oposição de Esquerda da UNE enquanto resposta para os atuais dilemas do movimento estudantil nacional. Sem cair na política sectária e autoproclamatória da proposta de desfiliação da nossa entidade da UNE, sem ao menos proporem uma alternativa de organização o que levaria ao isolamento dos estudantes da USP das demais lutas em defesa da educação pública que acontecem ao redor do país, nos colocamos o desafio de disputar os mais amplos setores para uma alternativa independente e unitária.

 

Após essa votação, entramos no debate sobre funcionamento do DCE Livre da USP. Compreendendo que repensar a maneira como nos organizamos é parte da tarefa de responder aos desafios colocados para este momento histórico, nós, do RUA, apresentamos uma proposta de alteração do funcionamento dessa entidade, a partir de gestões proporcionais. Esse é um método historicamente adotado em ferramentas de organização dos estudantes e da classe trabalhadora, visando a incorporação de minorias políticas que possuam alguma expressividade na base na dinâmica concreta da entidade, aumentando, assim, a representação da entidade em relação ao conjunto de sua categoria. A partir dessa ideia geral, formulamos uma proposta concreta para esse funcionamento proporcional de acordo com a realidade da USP, a partir de pastas temáticas - abertas à participação das e dos estudantes - e reuniões ordinárias do DCE. Nossa proposta foi adaptada a partir de considerações dos companheiros do Pr’Alem dos Muros e felizmente acatada por outras organizações como Levante Popular da Juventude e MRT.

 

Ficamos muito felizes de termos vencido política e numericamente a votação para termos uma gestão proporcional em nosso DCE, via uma articulação ampla em torno dessa reivindicação democrática, com a maioria de estudantes no plenário e com quase a totalidade das forças políticas presentes no ME uspiano, apontando capacidade e disposição concreta que temos em construir sínteses que armem, de forma responsável, para lutas conjuntas a serem travadas. Ao contrário do que tem sido agitado, não trata-se de um “acordão” (método de “trocas de favores” oportunistas entre organizações utilizado pela burguesia no Parlamento, por movimentos sociais burocratizados, etc, e não pelos anticapitalistas), mas sim de uma unidade real em torno de uma proposta democrática. No entanto, não atingimos 60% da plenária (a quantidade necessária para as mudanças estatutárias, que defendemos como um método que deveria ser mantido), tendo votado contrariamente a ela somente o Juntos, os delegados vinculados ao Grêmio Politécnico/USPInova e o Rizoma.

 

Este resultado demonstra que as e os estudantes cada vez mais percebem que a nossa diversidade deve ser expressa em nossas entidades representativas, sem cair nos argumentos auto-proclamatórios de que temos capacidade sozinhos de representar a todos. Infelizmente, muito nos surpreende a atual postura do coletivo Juntos -- com quem atuamos de maneira prioritária conjuntamente durante todo o processo congressual, por termos muitos acordos políticos -- de nos atacar nos dias seguintes ao congresso devido a esta nossa defesa. Avaliamos que erguer as armas aos principais aliados por causa de divergências táticas é a saída mais fácil em momentos de crise, além de expressar traços de um sectarismo que combatemos veementemente. A fragmentação e a dispersão atingem a esquerda de conjunto e precisamos estar atentos ao desenvolvimento de tendências sectárias mesmo entre os setores que prezam pela luta consequente e de massas, para não aumentarmos ainda mais a fragmentação do movimento estudantil uspiano, o que só contribuirá para as nossas derrotas.

 

De nossa parte, acreditamos que mais produtivo para a esquerda seria refletirmos, como campo de aliados políticos, sobre nossos erros e acertos no último período para avançarmos mais na construção das nossas lutas numa entidade efetivamente democrática. Esperamos que os companheiros e companheiras, que tanto prezamos, consigam refletir mais sobre as suas ações para avançarmos na nossa atuação conjunta no próximo período e não contribuirmos ainda mais para o já muito fragmentado movimento estudantil em nossa universidade.

 

Ao mesmo tempo em que não conseguimos mudar o estatuto do DCE para que ele passe a se organizar de maneira proporcional, vemos como muito positiva algumas mudanças que foram votadas nesta plenária, como a paridade entre homens e mulheres nas próximas gestões, o percentual de 12% de negros e negras para a inscrição de todas as chapas para concorrer às eleições do DCE, o reconhecimento dos estudantes de cursinhos populares como membros da comunidade uspiana, o incentivo aos estudantes residentes nas moradias estudantis para se organizarem pelos locais de moradia e o fortalecimento das reuniões do DCE nos cursos e unidades da USP. Estas medidas ajudam muito a construirmos um movimento mais plural e representativo e nos fortalece para lutarmos ainda mais!

 

Construir uma forte mobilização no dia 15 de outubro!

 

Por fim, o calendário tirado na plenária fínal e a concretização das lutas que deliberamos já estão em prática. Os piquetes na prefeitura do campus Butantã seguem cada dia mais fortes, o curso de Psicologia paralisou suas aulas nesta semana e a ESALQ já tem ato marcado em defesa da creche no seu campus, demonstrando assim que o Congresso foi um importante catalisador das nossas lutas, nos deixando ainda mais fortes. No dia 15 de outubro já iremos mostrar a força que este congresso trouxe para nós, construindo uma grande mobiliação em conjunto com os funcionários por melhores condições de trabalho e contra o desmonte da universidade.

 

Temos muito orgulho da intervenção coletiva de nossa militância nesse XII Congresso. Desde o início do processo, trabalhamos pelo sucesso do Congresso a partir da nossa intervenção como parte da gestão do DCE, das nossas intervenções e debates nos cursos e campi, da nossa luta cotidiana nas diversas frentes de movimento existentes na USP. Saímos fortalecidos com a certeza de que travamos ao máximo os debates políticos que consideramos necessários para o enraizamento e avanço do movimento na universidade e com a expressão de nossa força coletiva -- mas, principalmente, saímos fortalecidos com a certeza de que o XII Congresso deve reorganizar o movimento para as muitas lutas que virão.

 

Nós, do RUA - Juventude Anticapitalista, não mediremos esforços para lutarmos na construção de uma USP realmente pública e um movimento estudantil plural e democrático. Acreditamos que este XII Congresso de Estudantes da USP deu um passo importante nesta direção e agora vamos em nossos cursos concretizar as ações ali construídas.


Se muito vale o já feito, mais vale o que será!

 

 

 

Please reload

Please reload