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Visibilidade Bissexual! - Nós amamos! Nós existimos!

23.9.2015

 

 

O ônus da prova. Ousar assumir sua bissexualidade é viver constantemente tendo que produzir provas sobre ela. É viver constantemente tendo que corrigir as pessoas ao seu redor, a ouvir toda sorte de comentários e piadas. E a sofrer em silêncio, ou ser silenciada quando se fala. Somos as mulheres que mais se matam, se auto-mutilam, tem depressão, transtornos alimentares e as mais vulneráveis à violência doméstica do mundo. E, no entanto, o tempo inteiro cabe a nós a obrigação de provar que somos bissexuais.

 

Não entramos nas estatísticas de casamentos (sempre são casamentos gays/lésbicos ou casamentos héteros, a depender do gênero de nossas parcerias), não entramos nas estatísticas de violência (se somos vítimas de crime de ódio, é homofobia). Não entramos na história, mesmo a história que nós mesmes fazemos.

 

O Dia da Visibilidade Bissexual foi criado em 1999, como deliberação de um seminário da “Associação Internacional de Gays e Lésbicas”, para falar de nossas pautas e lembrar nossa história. Ainda hoje, mais de dez anos depois, há muito pouco escrito e estudado sobre bissexualidade fora de estudos estigmatizadores dentro da área da saúde, que nos identificam como vetores de DSTs. Estudos esses que não encontram correspondência em pesquisas feitas diretamente com a população bissexual, que relata utilizar com muito mais frequência métodos de prevenção de DSTs em suas relações sexuais. Pode-se, inclusive, atribuir essa maior observância justamente ao estigma de sermos sempre aqueles que contaminarão nosses parceires.

 

Além de engrossar desde sempre as fileiras dos movimentos pela libertação sexual e de termos sido sujeitos atives em Stonewall, as Paradas do Orgulho se transformaram em Gays. Brenda Howard, que esteve em Stonewall e militou a vida inteira no movimento LGBT dos EUA, teve a ideia e organizou a primeira Parada do Orgulho para lembrar Stonewall, um ano depois. E viu seu projeto se tornar um grande espetáculo do Pink Money. “Pink Money” é uma expressão usada pelos militantes LGBT para designar o processo de falsa inclusão social de LGBTs através do consumo. É falsa essa inclusão porque, como já estamos carecas de saber, só tem acesso a ela quem tem uma série de privilégios sociais e grana para bancar o estilo de vida de revistas de moda, decoração e turismo.

 

No entanto, apesar de sermos numericamente a maior parte da população sexualmente diversa, somos também a população inserida nas camadas mais precarizadas da sociedade. Nos censos já feitos, constatou-se que há muito mais pessoas trans, negras, árabes, imigrantes, latinas (quando falamos de EUA e Europa) se identificando como bissexuais do que como gays ou lésbicas. Também se constatou que somos a parcela localizada nos trabalhos mais precarizados e mais mal pagos, com maior instabilidade financeira e dificuldade de conseguir empregos. Portanto, os e as bissexuais tem acesso muito limitado a formas de inserção social baseadas em consumo e poder aquisitivo.

 

A bissexualidade na sociedade capitalista é vista como um fetiche, confusão e até loucura – partindo do discurso manicomial: a doença mental que precisa ser tratada. Dizeres que vão ao encontro de uma sexualidade mal compreendida na cabeça de quem se descobre bissexual, de quem se reivindica bissexual. Por isso, são necessárias políticas públicas que atendam às necessidades das pessoas bissexuais, principalmente no âmbito da saúde e da educação.


Acima falei de sermos as mulheres que mais se suicidam no mundo. Nesse sentido, é curioso que o mês da Visibilidade Bissexual, setembro, também seja o mês de Conscientização contra o Suicídio. Seria interessante se esses dois temas pudessem ser avaliados conjuntamente. Considerando que somos uma população socialmente e economicamente marginalizada seja simplesmente pela bissexualidade seja pelas outras características que usualmente se somam, não é nenhuma surpresa perceber o alto índice de neuroatipia. Temos muitas vezes a impressão de que as dores e as violências que vivemos são apenas nossas e, como quase não há iniciativas governamentais ou de movimentos sociais voltadas para a população bissexual, não temos para onde correr. Se não estamos inserides em uma comunidade de bissexuais ou de pessoas aliadas, o que costuma acontecer é sermos corroídes lentamente por tudo isso. E a neuroatipia só aumenta o processo de marginalização, em um ciclo vicioso.

 

É necessário um atendimento médico que entenda as particularidades da bissexualidade e não a condene. Nós não somos vetores de DSTs! Nós não devemos ter medo de nos assumir bissexuais numa consulta de rotina ou num exame específico, muito pelo contrário, isso deve fazer parte do processo. Uma educação que desmistifique a sexualidade como uma bifurcação, onde só nos resta seguir pela hétero ou pela homossexualidade. Uma educação que contemple a diversidade sexual em todas suas representações, para que jovens se reconheçam como são e se sintam livres para amar.

 

Nós amamos! Nós existimos!

 

dados tirados do: 
http://www.bisides.com/…/alguns-dados-sobre-saude-mental-d…/

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