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SOMOS TODAS VERÔNICA BOLINA: a juventude anticapitalista não apenas chora pela travesti, mas, sobretudo, luta pela sua dignidade!

16.4.2015

 

Nesta semana, o país ficou em choque após ampla exposição da travesti Verônica Bolina nas redes sociais. Nas imagens divulgadas pela própria polícia paulista, a modelo aparece de joelhos, com os seios expostos, calça rasgada, cabelo raspado e rosto desfigurado, irreconhecível; e, em outro momento, de bruços sobre o chão, atrás de detentos masculinos, algemada pelos pés e mãos.

 

A detenção de Verônica se de deu após um suposto caso de agressão no prédio onde mora. Apesar do aspecto desumano que foi exposta, o caso ganhou mais notoriedade pela grande mídia pela sua reação às agressões sofridas, que resultou numa lesão ao carcereiro do 2º DP (Bom Retiro, SP).

 

Verônica carrega no seu corpo e classe os principais agravantes para as ações de extermínio promovidas pelo Estado brasileiro: é preta, pobre e travesti. As suas imagens foram amplamente divulgadas por diversas páginas policiais no país, criminalizando-a e exibindo o seu corpo totalmente degradado como um troféu, atacando fatalmente os princípios constitucionais da ampla defesa, da dignidade da pessoa humana e da não-discriminação. Teve também a sua identidade de gênero destruída: rasparam os seus cabelos, vestiram-na com roupas masculinas e, na ala masculina, jogada aos pés dos detentos. 

 

A grande mídia reagiu com a mesma pontualidade transfóbica de sempre, tratando-a pelo gênero masculino, desrespeitando o seu nome social e a sua imagem. Expôs o caso de forma estigmatizante e reduzindo Verônica à categoria subumana.

 

O caso de Verônica não está desconectado do contexto brasileiro. O Brasil é o país com maior número de assassinatos transfóbicos do mundo. O risco de uma travesti ser assassinada e violentada no Brasil é 1280 vezes maior do que nos EUA (GGB, 2014). O risco de serem alvejadas por uma arma de fogo é dezenas de vezes maior do que para gays e lésbicas. A crueldade é sempre presente, como foi nesse caso.

 

As pessoas transexuais e travestis são mortas e violentadas várias vezes, com reiterados espancamentos, tiros, facadas e pedradas, porque as suas identidades de gênero é um agravante. A sociedade autoriza o extermínio desses corpos desumanizados. Os corpos trans são arquivos vivos de histórias de exclusão. A situação de violência é estrutural e se estende a todos os campos sociais.

 

Em regra, as pessoas transexuais e travestis são expulsas de casa pela família. Sofrem com a rejeição sumária no mercado de trabalho formal. No ambiente escolar, os relatos de violência física, psíquica e moral são um elemento comum na experiência delas. As pessoas trans negras e pobres, como Verônica, são ainda mais vitimadas pela opressão racial e de classe. Elas são alvos fáceis da polícia desde a ditadura militar brasileira, cujas práticas genocidas permanecem. Não por acaso, a ONU reconheceu extermínio da população pobre e negra em pleno fluxo no país.

 

Às pessoas transexuais e travestis, negam-se os direitos à saúde, à educação, ao trabalho formal, ao nome, ao tratamento digno nos espaços públicos. O sistema capitalista impõe a esses sujeitos a sobreviver, muitas vezes, da mercantilização do próprio corpo e em subempregos.

 

Por todo o exposto, ao passo em que REPUDIAMOS a violência sofrida pela companheira Verônica Bolina e a sua exposição ilegal pela grande mídia, EXIGIMOS a sua liberdade imediata, bem como a abertura de sindicância para apurar a responsabilidade das autoridades policiais envolvidas.

 

Exigimos também o posicionamento público do Estado de São Paulo em repúdio a tais práticas e o compromisso do Governo Federal com as demandas das pessoas transexuais e travestis em defesa de políticas públicas pelo fim da transfobia, para que casos como os de Bolina não continuem sendo regra no Brasil.

 

#SomosTodasVerônica

 

Créditos da arte: Mateus Cardoso

 

 

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