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Quem carimba mais com o HIV: o clubinho do carimbo ou Dilma e a Rede Globo juntos?

 

As duas últimas reportagens apresentadas pelo Fantástico denunciando um suposto grupo organizado de homens, sobretudo homossexuais, que, propositalmente, infectam outras pessoas com o vírus HIV causou enorme comoção e terror. E não é pra menos. Transplantou para o imaginário social uma verdadeira bomba de Hiroshima moralista, estigmatizante e criminalizadora das relações sexuais, especialmente das LGBTs.
 

O teor das reportagens não é neutro. Funda-se num estigma histórico que, desde a descoberta do vírus HIV no Brasil e no restante do mundo, a doença foi atribuída à população de gays e travestis. Não por acaso, à época da ditadura militar, as travestis cortavam-se com navalhas como forma de proteção à truculência dos policiais, para evitar que estes sequer encostassem. Alia-se, também, ao vácuo de políticas públicas preventivas e educativas de toda a sociedade sobre os cuidados.
 

Em 2012, junto ao Kit Brasil Sem Homofobia nas escolas públicas, a presidenta Dilma Roussef (PT) vetou as propagandas anti-HIV voltadas para jovens LGBTs, alegando que "seu governo não fazia propaganda de opção sexual". De lá para cá, quantos milhares de indivíduos foram 'carimbados' com o vírus HIV e por outras doenças em virtude da omissão desse governo? Esse carimbo tem um alcance muito maior e tem atingido massivamente parte dessa população.
 

A ONU destaca que, enquanto que no restante do mundo o número de infecções pelo HIV diminuiu em 38%, no Brasil cresceu 13% nos últimos anos, sendo o único país em que o índice de contaminações tem aumentado. A juventude LGBT ainda é o principal alvo dessas infecções. Segundo o Ministério da Saúde, desde 2006, os casos de Aids nos jovens entre 15 e 24 anos aumentaram mais de 50%. Importante destacar que as mulheres lésbicas desconhecem as formas de prevenção, porque suas especificidades são invisibilizadas. A população de mulheres transexuais e travestis estão numa completa situação de risco e abandono social visceral e, no mesmo sentido, as pessoas bissexuais e os homens gays.
 

Ao passo em que o fundamentalismo religioso cresce no parlamento brasileiro com a participação ativa do governo Dilma (PT), a saúde de LGBTs tende a se precarizar ainda mais. As suas relações continuarão guetizadas, isto é, às escuras e, quando muito, dentro de redomas de consumo, privilegiando quem pode pagar pelo seu acesso.
 

Existe um recorte classista e racial nesse quadro: a população pobre e não-branca, por ter menos acesso à saúde de qualidade, às medidas educativas de prevenção e permanecer à margem do consumo, fica ainda mais sujeita às infecções e outras formas de abandono social, incluindo as mais variadas formas de violências. Além disso, os sujeitos soropositivos tendem a se manterem estigmatizados, excluídos e ainda mais vulneráveis.
 

Ao contrário da lógica criminalizante e punitivista apresentada pela Rede Globo, que mais desinforma que reeduca, é preciso pensar que os principais 'carimbadores' estão devidamente instituídos pela omissão do governo federal, pelo conservadorismo da bancada fundamentalista religiosa, pela estigmatização da grande mídia e por todo o aparato empresarial que lucra com a indústria da doença.

O suposto grupo denunciado pelo Fantástico deve ser investigado a fim de que seja acompanhado, compreendido e, preventivamente, desmontado de forma ampla, coletiva. Embora sejam graves, enquadrar tais práticas no âmbito meramente punitivista não educa, tampouco avança no acúmulo social sobre o assunto.
 

A defesa por políticas públicas para a população LGBT, que se encontra numa estrutura inferiorizada de direitos, não pode ser vista como um punhado de privilégios. Pelo contrário. Trata-se de uma demanda histórica de uma população cuja vida é ceifada de dignidade em suas mais variadas dimensões e por um carimbo maior: da exploração, do estigma e da precarização das relações humanas mais primárias.

 

 

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